11.10.06

Normalidade...I


As luzes brancas dos postes ferem, por um segundo, os olhos de Eric quando ele chega ao último degrau. Ele olha em volta, e por um instante, a normalidade do ambiente – a cacofonia de muitas músicas e vozes misturadas, os roncos dos motores dos carros e os odores de suor, cigarro e cerveja – pareceu realmente alienígena à sua percepção. Era como se ele visse um quadro abstrato de cores muito vivas e formas muito nítidas, mas que não fazia nenhum sentido em especial. Então, com um simples movimento de pálpebras, as peças do quebra cabeça caem nos lugares certos e o mundo se torna o seu mundo novamente...

Por que ele sentia que aquela impressão parecia tão tênue quanto uma bolha de sabão?!

Seus devaneios são mais uma vez interrompidos por Beau. O amigo o cutucava com o cotovelo, sem a menor paciência:

- Eric. Seu carro. Cadê ele? Cadê?- a pergunta é feita de maneira ansiosa. Mandy desistira de caminhar manquitolando e tirava o Jimmy Choo restante, jogando-o na coxia com um pouco caso impressionante. Os pés pálidos, de pele muito fina, pareciam obscenamente nus contra a calçada imunda. Kary mantinha os braços cruzados para esconder o tremor que, de vez em quando, agitava o seu corpo; o seu suéter escuro estava cheio de sujeira. A blusa havaiana de Beau, antes azul, estava tingida agora por uma feia cor de cobre, os abacaxis da estampa parecendo rubros e doentios, graças ao poliéster manchado. Aliás, sob a luz fluorescente, Eric podia ver que os amigos apresentavam uma coleção variada de machucados e as roupas faziam com que eles parecessem ter saído de uma batalha. De certo modo haviam saído, Eric concede a si mesmo, uma ponta de raiva por não saber exatamente como tinham ficado naquele estado formigando dentro de si. Aquele vácuo mental era desagradável não apenas por simplesmente existir, mas também pq ele tinha a nítida impressão que aquela memória explicaria tudo. Tudo mesmo, inclusive pq ele estava vendo detalhes que teriam passado despercebidos até horas atrás. De alguma maneira, tudo parecia mais intenso e vivo – era como ter passado os últimos vinte e três anos de vida com uns óculos de lentes escuras no rosto, e após o incidente (“é, vamos chamá-lo assim por enquanto”, diz a consciência do rapaz em uma voz pacificadora), essas lentes tivessem sumido. O gemido de Tatj, em seus braços, faz com que Eric volte a fitar Beau:

- Não sei... Estacionamos perto do bar. – ele responde. Kary dá uma olhada em redor, tentando se localizar. A moça percebe que o grupo estava começando a chamar atenção. Os machucados pareciam estar se evidenciando. Sem a menor vontade de dar explicações a estranhos (ou a polícia), ela observa com mais atenção, até finalmente conseguir enxergar o inconfundível “ericmobile”:

- Ali!- ela exclama com um inesperado entusiasmo que faz a sua voz tremer. O Plymouth Barracuda 69, com o seu vermelho original de fábrica, frisos negros e pneus de banda branca era único e sempre chamava a atenção onde quer que estivesse. Ela lembrava de quanto tempo Eric e o pai haviam gasto restaurando aquele carro. Anos... Verões e verões, quando o amigo dedicava todas às suas manhãs a arrancar o carro das garras do tempo e da decadência. Funcionara, e era provavelmente a coisa mais preciosa do mundo para Eric. Apontá-lo, encontrá-lo, encheu Kary de uma estúpida sensação de vitória, como se tivesse encontrado algum tesouro. Ela torce para que a nota estranha na sua voz ter passado despercebida, enquanto eles se movem, de maneira distintamente... Similar; o grupo de amigos parecia um bem treinado pelotão em miniatura, caminhando com passos apressados, mas, mesmo assim, sincronizados. Ela se inclina diante da roda traseira e os dedos longos tateiam o alto do pneu, logo encontrando o chaveiro em forma da garrafa de Crown Royal e as chaves do Plymouth. O contato com o metal frio e pontiagudo quase faz a moça chorar de alívio. O hábito absurdo de Eric lhes garantiria uma saída dali, já que o resto dos seus pertences parecia ter sumido ao mesmo passo de suas lembranças recentes. Kary inclina a coluna e balança as chaves prateadas diante do rosto, com um meio sorriso, que some quando Mandy diz, hesitantemente, em um sussurro:

- Temos que avisar a polícia. Temos... Quero dizer, o Adam... - ela empalidece ainda mais diante da expressão dos amigos, pousando as mãos sobre o teto do carro:- TEMOS que fazer alguma coisa. - o tom sai subitamente carregado de determinação, provocando uma tensa troca de olhares. - E teremos que ir ao hospital também. - ela acrescenta de maneira quase banal.

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