Luta II

Graham não era o líder à toa. Naqueles poucos segundos desde que Ballesteros invadira a sala reservada, ele observara, contabilizara tiros, registrara que Bardolph e Georgianne tinham usado uma das saídas secretas (bloqueando-a, inclusive, como ele mesmo também teria feito – a sobrevivência era mais importante) e anotara mentalmente a morte de N’bae com desprezo e raiva. Não por perder um companheiro, mas pq, quando um deles encontrava o Destino Final, uma parcela de poder também abandonava os demais membros da Família.
E Graham odiava ceder poder, fosse à força ou solicitado de maneira gentil...
As sobrancelhas negras se franzem sobre os olhos escuros. Apesar da capa e da espada, quem quer que estivesse ali não era o Velho Ballesteros. Tinha um cheiro similar. Movia-se de uma maneira elástica e rápida demais, que o conhecido caçador já não era mais capaz. A percepção de que uma cria do Clã Ballesteros estava tentando firmar o seu lugar à custa do sangue dos seus faz o ser aristocrático sentir o acinte queimando sob a sua pele pálida. Logo aquele fogo se transforma
Ballesteros segurava a espada e a pistola. Não teria tempo hábil para recarregar a arma, percebe. Os monstros parecem notar a sua hesitação momentânea, os rostos belos e ferozes abrindo-se em sorrisos de antecipação. Talvez tivesse conseguido eliminar o velho por pura sorte... Já que, apesar de ter causado alguns machucados e de um maldito ruivo ter fugido, não conseguira mais nenhuma baixa. Os remanescentes o fiatavam com olhos de fogo e ar assassino. Agora estava ofegante, sentindo o peito subir e descer sob a capa escura, os cabelos molhados de suor sob o chapéu, colando-se o seu couro cabeludo. Os dedos seguram com mais força o punho trabalhado da espada. A voz de sua consciência (que soava exatamente como o seu avô) lhe adverte de que um erro crasso e básico havia sido cometido. Subestimara seus inimigos e superestimara as suas próprias capacidades, indo ali, no covil, por sua conta e risco. Havia uma razão para os caçadores andarem em grupos de três ou quatro. Por ignorar séculos de tradição e ensinamentos, via-se agora num beco cuja única saída parecia ser uma morte lenta e dolorosa, que poderia se estender por anos a fio, se as criaturas estivessem particularmente dispostas a praticar aquele seu distorcido senso de humor.
Não deveria estar hesitando. Não poderia deixar as dúvidas lhe paralisarem...
Porém, para sua vergonha, era exatamente isso que estava acontecendo. O homem alto e de cabelos escuros, uma mancha branca e preta no seu terno caro, se aproxima com ar de ofendida revolta no rosto másculo. Os dedos, suados dentro da luva, fazem um movimento para lançar a espada à sua volta de maneira ampla e defensiva. Ballesteros percebe, um segundo depois, que aquilo abrira a sua guarda, expondo seu flanco. Para seu azar, Graham também percebe. Com o punho cerrado, ele apara o impacto da lâmina com o antebraço. Ao contrário do que deveria acontecer, o metal não trespassa tecido, carne e ossos – e sim racha e trinca, em contato com a manga do terno Armani. O cérebro de Ballesteros se enche de mórbido fascínio. Já ouvira falar de monstros que podiam fazer isso, concentrar tanta energia que se tornavam momentaneamente indestrutíveis. Mas nunca presenciara tal coisa, era...
Era mortal. Com a atenção focada em observar, o papel de caçador fora esquecido por um instante E um instante era tudo o que Graham precisava. Afastando a lâmina com desprezo, os dedos longos e pálidos cerram-se, violentamente, na garganta de Ballesteros. Graham tinha um “quê” por gargantas. Talvez isso traísse a sua natureza animal. Ou talvez fosse o fato de que era um dos pontos mais adoravelmente frágeis dos humanos, assim como os olhos... Sustentada fragilmente pela coluna, necessária para trazer o precioso ar para os pulmões, o sangue que vibrava sob a estrutura da garganta era sempre doce, quente e fluía rápido. Delicioso.
O homem suspende Ballesteros sem dificuldade do chão, o corpo diminuto do caçador assumindo o papel de presa. Com o movimento, o chapéu cai da cabeça suada, revelando cabelos lisos, finos, cor de rato... E um rosto avermelhado e muito jovem, cujos olhos eram de uma cor tão indefinida quanto à dos cabelos. A assassina de N’Bae era uma garota pequenina, de mais ou menos vinte e poucos anos, e absolutamente desprovida do lendário charme dos Ballesteros. Quem sabe a perspectiva da morte a tornasse ainda mais insípida do que deveria ser, Graham pensa, fitando-a de maneira fria, o ódio sendo lentamente substituído por sentimentos mais calculistas.
Tudo o que se ouvia agora eram as respirações rasas de seus companheiros – incrível como velhos hábitos demoravam a sumir...- e o som gorgolejante que saia da garganta da jovem Ballesteros. O líder analisa a garota sob seus dedos com os olhos escuros. Então, ela pretendera desafiá-los, não é? Um sorriso gelado passa pelos lábios cheios. Pois bem, ele faria a sua vontade... Mas não exatamente como a impertinente invasora planejara.


1 Comments:
Devidamente lido e comentando, ela se pergunta: - Vai escrever isso como um conto, historia ou o que? Tem potencial. Qual será o próximo passo? Será que já tem a trama toda delineada? Perguntas, perguntas e mais que perguntas que esperam ser respondidas nesse sábado, hehehe
Beijos maluca! :o*
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