Kary

- Cala a boca, Beau. Cala a boca... – embora a voz fosse fraca, a inflexão particular de Karyan – Kary – tornava a advertência áspera. Porém, até quando estava sendo gentil, a voz de Kary soava com um toque de lixa, herança dos seus pais armênios. Eric achava sexy. Mas a moça, cujos cabelos de um tom denso de mogno cobriam o rosto, não parecia nada sexy, no momento.
Assim como os outros, Kary sentia dor. De maneira vaga e surda, latejando em algum lugar. Mas, mais do que isso, ela sentia raiva. Uma raiva indefinida e endereçada a tudo. De estar ali, de sentir-se machucada e invadida, do que quer que tivesse acontecido – que a sua mente percebia como ruim e nebuloso, mas sem nenhuma forma clara. Um mecanismo de defesa, talvez. E o fato de que talvez estivesse precisando de um mecanismo de defesa qualquer apenas servia para aumentar aquela fúria que incendiava o seu sangue, em ondas tão inflexíveis e indiferentes quanto as da maré...
As palavras de Kary parecem atingir Beau como se possuíssem força física; o ar distante some do seu rosto, e ele parece ceder sob o peso do próprio corpo. Apoiado mais uma vez nas mãos, o rapaz dobra os cotovelos, ocultando o rosto na curva do braço, aparentemente sem se importar com o cheiro de sangue que o repugnara antes.
- Desculpa, Kary... Desculpa... – o pedido se transforma em um murmúrio desconexo. Quando capta algo que soa muito parecido com “Je serai un bon garçon. Je veux être un bon garçon “*, o pensamento de que Beau podia estar tendo alguma espécie de surto passa mais uma vez pela mente de Eric. Mas logo é descartado. Aquilo tudo era uma espécie de surto coletivo. O que fosse dito ali seria resultado da óbvia tensão a qual eles estavam sendo submetidos. Iriam escapar dali, sobreviver àqueles momentos de terror e pânico e jamais tocar nesse assunto novamente. Dividiriam para sempre um laço invisível que os teria tornado mais fortes, mesmo que de maneira desagradável. Satisfeito com a maneira com a qual as frases pareciam tão cheias de sentido na sua cabeça, Eric se ergue de maneira vacilante, olhando em volta. O seu movimento é imitado por uma ainda obviamente zangada Kary.
- A menos que tenha sido você que nos trancafiou aqui, Beau, é melhor ficar calado. Não torra!- ela exclama, entre os dentes. Os sons estranhos q o amigo fazia a deixavam ainda mais irritada. A moça percebe, porém, que tudo a estava deixando mais e mais irritada. Não se reconhecia. Era como se um oceano de ódio primitivo estivesse forçando as barreiras de civilidade que o continham. Seus dedos se crispam na parede, enquanto ela tentava equilibrar-se nos dois pés, de maneira mais ou menos firme...
Inspirando fundo, ela ergue o queixo num ângulo teimoso e encara Eric:
- Onde estamos? O que diabos aconteceu?
- Essa deve ser a pergunta vencedora... – Eric responde, de má vontade, a agressividade mal disfarçada de Kary fazendo algo se torcer de maneira desagradável dentro dele. - Se não notou, Kary, estou aqui da mesma maneira que vc. Exceto por ter acordado uns dois minutos antes, não sei de muita coisa! - O comentário termina saindo num tom mto mais beligerante do que ele gostaria. Os olhos esverdeados de Kary se arregalam de choque e acinte. Ela abre a boca para retrucar, mas o gemido de Mandy faz com que ela cerre os lábios mais uma vez:
- Não briguem... Por favor, não briguem... Isso não faz sentido... Vocês deviam ver se o Adam e a Tatjana estão bem... Não briguem!- o pedido é feito em voz estridente. Num tom que anunciava um ataque histérico.
- Vê? Já começou. - N’bae comenta em voz alta, aparentemente feliz por ter sido o primeiro a predizer que os jovens iriam se matar. Alec tamborila os dedos sobre o laptop, demonstrando uma ponta de nervosismo. Georgianne coloria caprichosamente uma tulipa de vermelho, como se a discussão não lhe importasse. Damaris fita Graham, à espera de sua reação. Porém, o momento de silêncio é interrompido por um soco na cara mesa Chippendale, de estilo oriental:
- Ah!! Essa pirralha tem fogo nas veias. Gosto do jeito que o olho dela brilha, com sede de sangue. - o dono da voz grave era alto, seu cabelo loiro alaranjado longo, com duas pequenas tranças atrás das orelhas, que se destacavam da massa cor de fogo por estarem cuidadosamente presas com várias peças de metal prateado. Seu peito era amplo, e o seu corpo em formato de barril parecia prestes a rasgar as costuras de sua camisa xadrez. Ele era ainda mais destoante do ambiente do que Georgianne, com seus jeans gastos, suas botas pesadas e a sua lata de Budweiser.- Eu também acho que deveríamos ficar com eles. Um projeto a longo prazo, sabe...
- Isso está fora de questão, Bardolph.- A voz de Graham finalmente se faz ouvir. A maneira como o seu sotaque britânico se acentuava a cada palavra mostrava que o líder não estava no melhor dos espíritos. Irônico, se fosse levado em conta de que a idéia daquela pequena diversão noturna havia sido dele.
* Je serai un bon garçon. Je veux être un bon garçon = Eu serei um bom menino. Eu quero ser um bom menino.


1 Comments:
Apesar de eu estar bem localizada com os personagens na sala escura, o grupo na sala iluminada esta começando a me confundir. Muitos nomes ao mesmo tempo. Será que a minha cabeça esta falhando? Não são tanto, mas eu já não sei quem é quem. Acho que é a idade. Deixa eu voltar la...
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