3.10.06

Beau


Beau escuta as vozes de Mandy e Eric de maneira indistinta. Como se os amigos fossem uma estação de rádio mal sintonizada numa espécie de talk-show esquisito. Aquilo aumentava a sua sensação de que tinha tomado todas e mais algumas e fechara a noite apanhando de um time inteiro de futebol. Ou de basquete. Ou fosse lá qual fosse o esporte que reunia hordas de grandalhões descerebrados, no momento...

A questão era q Beau não bebia. Não se pode contar uma garrafa de Heineken como bebida. E a última vez que fora acuado por um bando de atletas q se divertiam espancando gordinhos incautos tinha sido no ginásio. Já fazia algum tempo. Hoje em dia, embora ainda fosse gordinho, Beau tinha aprendido a usar a cabeça para se defender e não estar nos lugares errados na hora mais inadequada possível...

Aparentemente, seus cuidados tinham falhado. E, pela dor q sentia se espalhando por suas costas e braços, tinham falhado de maneira miserável... Ele deixa a cabeça cair contra o chão, os olhos castanhos fitando o teto sem realmente vê-lo. Hm, com todos aqueles fios descascados, parecia o lugar ideal pra um incêndio...

“Isso não é hora de pensar em fios, seu imbecil”, uma voz adverte nitidamente na sua cabeça. ELES estavam lá. ELES estavam acompanhando. Assistindo... Beau não perde tempo cogitando quem eram ELES, pq a voz parecia tão absurdamente autoritária que ele não pretendia contrariá-la. Alguém tão determinado só poderia estar certo. Além do mais, Mandy não parecia feliz, e ele não gostava quando ela não estava feliz...

Com um esforço – e com a voz cantando uma espécie de hino militar em uma língua q parecia francês (como Beau poderia saber, se não sabia nenhuma palavra do nobre idioma?!) a título de incentivo, o rapaz rola o corpo e posiciona-se, de forma trêmula, sobre os joelhos e as mãos espalmadas. Tentando controlar o mal estar, Beau inclina a cabeça, apoiando-a momentaneamente nos antebraços... Antes de afastar o rosto com repulsa. O cheiro de ferrugem de sangue seco era inconfundível. Ele cogita, de maneira vaga, se seria o seu sangue ou de outra pessoa. Com a sua sorte, devia ser o seu mesmo. Todinho. A idéia de que talvez estivesse deitado numa marinada composta de sujeira e do seu próprio sangue faz com q ele se sinta um bife mal passado. Daqueles que, quando são cortados, escorre aquela mistura de salmoura e suco de carne.

Beau gostava de carne mal passada. Mas não o suficiente para querer ser parte da família.

Colocando-se em seus joelhos (e notando q o tecido da sua camisa havaiana se colava de maneira esquisita no seu corpo), ele move a cabeça na direção de Eric e Mandy.
- A banda era péssima... Mas o atendimento parece q é pior ainda... - o comentário é feito com uma voz que, embora trêmula, parecia colorida por uma nota de bom humor. Aquilo chama a atenção de Eric e Mandy, e também da voz. Com um peteleco mental, a voz avisa que o lugar dos engraçadinhos era no cemitério, e que, se Beau não prestasse atenção, ia ter que trocar aquelas camisas berrantes por um paletó de madeira. Contrariado com a advertência, mas em foco novamente, Beau olha direto para o lugar onde a câmera estava oculta. Sua expressão passa de aérea para séria. Séria demais, em total desacordo com os traços redondos e um tanto infantis do seu rosto jovem.

Na sala de observação, o impacto dos olhos castanhos faz com que os murmúrios silenciem.
- Ele pode nos ver?!
- Não. - a resposta de Alec é rápida o suficiente para trair a sua surpresa... E o seu desconforto. - Não, de jeito nenhum. É só um moleque gorducho que olhou para um ponto qualquer...
- A questão é que o ponto qualquer é o ponto certo. Mas não são assim todas as coincidências?-a voz infantil faz com que os observadores olhem, como um único monstro de muitos olhos, para a garotinha no ponto mais distante da sala sofisticada. Ela estava sentada no chão, as pernas cruzadas como as de um iogue, mostrando as pontas de delicados sapatos de verniz. Os cachos vermelhos estavam arrumados caprichosamente com um laço, de seda tão negra quanto à do vestido. Ela parecia mais uma versão extremamente dark de Darla, do antigo seriado “Little rascals”... E como se isso não fosse o suficiente para fazê-la destoar do ambiente caro e adulto, os demais pareciam incomodados com a suas palavras. Damaris fita a menina por poucos instantes e desvia o olhar novamente para a tela. Não suportava observá-la por mais do que alguns segundos...!

Parecendo distraída com folhas de papel e crayons, ela põe uma língua vermelha e pequenina para fora, parecendo concentrada em um detalhe particularmente difícil do desenho, indiferente aos adultos. Qdo eles finalmente começam a relaxar, ela comenta, sem desviar os olhos do trabalho:
- Eu gosto dele. Posso ficar com ele?

- Beau... Beau?- Afastando-se de Mandy, Eric se arrasta até onde o amigo estava, de joelhos como se estivesse na igreja, olhando fixo para a parede com um olhar que Eric só vira antes quando Beau apanhava dos colegas, na sexta série. Nessas ocasiões ele ficava sério e tenso, prometendo vinganças que jamais se realizavam. Mas o menino Eric ainda lembrava de quão assustadores eram esses momentos, de fitar Beau e não reconhecê-lo. E, após anos, estava acontecendo de novo...

- Eric. - Beau responde num tom de voz distante, os olhos pregados na parede de tijolos. - Eles estão nos observando. Os velhos idiotas. Idiotas. Idioooootas.... -uma risadinha cínica faz Eric se preocupar com a sanidade do amigo.

A risadinha encontra um eco silencioso na garotinha dentro da sala de observação. Se eles não estivessem tão surpresos com aquela reação inesperada de uma de suas presas (nem de longe a mais provável de esboçar uma reação, de qualquer modo), teriam notado. Mas não... A novidade era algo traiçoeiro e atrativo, até mesmo para eles. O inesperado era um elemento raro para todos ali, e devia ser apreciado... Talvez temido?

Não. Não havia razão para ter medo. Eles acreditavam firmemente que não havia problema algum que o extermínio não resolvesse...

“ Velhos idiotas”. Georgianne sorri para o seu desenho. É, decididamente gostava dele...


3 Comments:

Anonymous Anonymous said...

Essa Georgianne me parece uma mistura da Sammy e da Mary Sue do XT5. Porem com mais conteúdo e estilo que as duas acima citadas. Aposto que ela é mais poderosa também. Essa gente para escrever personagem over power, já viu neh Debbie? Sem comentários. So far so good, let me keep reading...

4:02 PM  
Anonymous Anonymous said...

Por que tu perdes tanto tempo??? Já podias ter escrito um livro ou, quem sabe - no mínimo!, ter participado de algum concurso p blog ou similar. Tens o principal q falta aos bons escritores: apelo. O q escreves deixa a gente c gosto de kero+, kero+, kero++++++++++++++++++!

Pensa a respeito: livro, e-book, p começar. Depois, editora. O úncio senão seria um "não", mas isso é um trauma perfeitamente ultrapassável e, mesmo qdo ou se disserem uma negativa, insista!

EstOU ADORANDO. Não para, pls!

8:15 PM  
Anonymous Anonymous said...

O clima está ficando tenso... e a história está ficando cada vez mais envolvente...

10:55 PM  

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