3.10.06

Fuga II



- Mas que merda...?- o resto da observação surpresa de Eric se perde qdo ele sente o metal cedendo sob seus dedos. As dobradiças deveriam estar oxidadas, ele pensa. Não fazia sentido elas se apresentarem tão pouco resistentes... Não fazia sentido que sair daquela caixa sufocante fosse tão fácil... Fazia ainda menos sentido olhar para cima e notar que os dedos de Kary, cerrados sobre a dobradiça, faziam o metal se romper quase com delicadeza.

Um estalo, dois, vários – em questão de momentos, o som alto demais da porta de madeira cedendo de sua moldura foi nitidamente ouvido. Para Eric, parecia um coro de anjos metálicos e pós modernos que anunciavam a liberdade, de qualquer maneira... O rapaz espalma as mãos na peça pesada que era a última barreira entre eles... E o resto. Ou ao menos era o que ele desejava de todo o coração. Os sons urbanos - automóveis, falatório e música alta chegam até os seus ouvidos de maneira distante, mas já era um excelente prenúncio...

– Cuidado aí. - ele avisa, de maneira desnecessária. Kary já sustentava, por sua conta, uma boa parte do peso. Por entre os fios escuros e com ar de “viu só, seu idiota, eu disse que conseguiríamos” estampado no rosto, ela fita Eric com os lábios cerrados. Parecia estar se contendo para não verbalizar o que estava bem claro em sua expressão. Feliz pelo fato de que estavam prestes a sair dali, ele simplesmente não se importa, esboçando para ela um sorriso luminoso q deixava ver os dentes brancos sob os lábios e o cavanhaque. Com um movimento coordenado, eles empurram a porta para a direita, abrindo assim caminho para uma longa escadaria desgastada que levava para a insegurança familiar das ruas cheias de gente. Era possível sentir o odor de gasolina queimada trazido pela brisa fria, e poucas vezes Eric achou um cheiro tão delicioso assim. Erguendo-se, ele volta-se para os amigos, ignorando que a luzinha da câmera oculta piscava histericamente, agora... Em uníssono com sons de alarmes que ele podia captar apenas de forma distante. Mas como não parecia fora do contexto, ele não se importou.

Como se tocada por uma corrente elétrica, Kary se precipita na direção dos degraus. Só precisava sair dali, naquele minuto, antes que continuasse pensando aquelas coisas sangrentas e horrorosas. A frieza do mundo real toca o seu rosto de maneira simultaneamente refrescante e dolorida - um choque de realidade que clareava sua mente à força. Eric lhe dá passagem, caminhando até onde estavam Mandy e Tatj. A ruiva permanecia desacordada, assim, ele a pega nos braços para levá-la. Estranho... Tatj não era nenhum peso pena, e em uma situação normal, carregá-la daquele modo certamente estouraria as costas de Eric. Porém, ela lhe parecia leve como uma flor. Se fadas existissem, elas seriam assim, sem peso algum. Assumindo que devia estar sob efeito da adrenalina ou qualquer componente bioquímico milagroso, o rapaz fita o rosto desfeito de Mandy:

- Dy,vamos sair daqui. Precisa de ajuda? Acho que o Beau vai ter que dar uma mão ao Adam...
- Não, tudo bem. Eu consigo. - ela se esforça para dar um sorriso. Seus lábios trêmulos transformam a tentativa num esgar. O que a loira mais desejava, naquele instante, era um longo banho de imersão, em água quente e limpa, para livrar-se daquela sensação de que algo pegajoso tinha deslizado por sua pele. Ela se ergue, usando a parede como apóio. Alguns passos hesitantes depois – e então ela nota que perdera um de seus sapatos. Era um Jimmy Choo. Mas valia muito mais sentir o chão áspero e os degraus sujos contra seu pé descalço do que ficar naquele túmulo coletivo com os dois pés calçados, ela pensa, antes de, vagarosamente, começar a subir.

Beau não se movera do lugar, ainda encolhido contra a parede. Eric fita o amigo com uma expressão que mesclava impaciência e medo:
- Beau, vê como o Adam está. Ajuda ele...
- Eu já olhei. -O tom de voz era o de uma criança que havia sido mandado fazer algo particularmente aborrecido. - E não dá pra ajudá-lo. O Adam tá morto, Eric. - a informação é dada em pouco mais que um sussurro. Uma calma gelada parecia ter se apossado de Beau – obra da Voz, sem dúvida. Ela parecia meio aflita – talvez com outras coisas em mente...? – mas dizia a Beau que eles deviam sair dali. Rápido. Senão teriam ainda mais problemas. Na concepção de Beau, sobravam bem poucos problemas para eles. Afinal, depois que vc morre afogado num molho denso de seu próprio sangue, sangue alheio e sujeira, e depois volta à vida assim, sem a menor das considerações, quanta coisa mais podia dar errado?

A maneira desapaixonada com a qual Beau dá a sua sentença acerca de Adam faz Eric sentir como se o seu estômago tivesse subitamente despencado para os seus pés. Não podia ser verdade. Jovens só aparecem mortos em porões abandonados em filmes de terror ruins e notícias de jornal que só aquelas velhinhas com um gosto por sangue liam. Não deveria acontecer com pessoas de verdade. E eles eram pessoas de verdade, matavam aulas na faculdade, passavam horas de papo furado via Messenger e riam de piadas idiotas. Ele sente o mundo oscilar, e a única coisa que evita que ele caia é Tatj. De repente, mantê-la em relativa segurança pareceu ocupar todo o seu consciente. Os dedos se cerram com força na carne macia antes que ele empurre as palavras entre os dentes:
- Então nós temos que tirá-lo daqui. Anda, Beau, não vamos deixar o Adam aqui!
- É inútil, Eric. Inútilinútilinútil.- O aviso torna-se uma cantiga sem pausas para respirar. De maneira surpreendentemente ágil, Beau salta do lugar onde estava, saindo de sua posição fetal para, no instante seguinte, estar de pé diante de Eric. A coisa acontece tão rápido que o rapaz não se contém e dá um passo para trás, os cotovelos se erguendo de maneira defensiva para manter Tatj em relativa segurança:
- Beau, a gente não pode...
- A gente deve, Eric. - o brilho de aço parece revestir as pupilas castanhas de Beau. Sem o menor traço de gentileza, ou de hesitação, ou do Beau que ele conhecia, Eric se vê empurrado, escadaria acima, sem chance de firmar-se em seus pés e negar aquela insanidade. A urgência traduzida nos gestos e na expressão do seu amigo (ainda era o seu amigo, não é?) mata seus argumentos antes que eles se formassem em sua garganta. Com um último olhar para o corpo de Adam, ele murmura uma desculpa sincera. E logo se vê a caminho da luz mortiça dos postes, que indicavam o mundo além daquele porão, as silhuetas de Mandy e Kary cortando a luz, seus rostos obscurecidos parecendo deslocados do mundo real.

As mãos de Beau, empurrando suas costas para que ele se movesse mais depressa, fazem Eric parar de divagar. Com um suspiro, o rapaz concentra-se em não cair – e aquilo já lhe parecia uma enorme conquista.

1 Comments:

Anonymous Anonymous said...

To impressionada com o nível da escrita. Bem seco e sem excesso de palavras desnecessárias. Bem conciso mesmo, indo direto ao ponto. O uso de adjetivos variados ajuda a manter a leitura ágil. To gostando mesmo. :o)

4:41 PM  

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