Luta I

Pelo corredor longo, Ballesteros caminha com graça mortal. Fora fácil invadir o lugar. Segurança mal feita. De quinta categoria. Nem sequer uma gota de suor escorrera pela sua testa, para criar uma ilusão de algum esforço. Os corpos caídos pelo caminho não lhe importavam – eram simples serviçais, que estariam mortos assim que os seus donos encontrassem o destino final. Talvez algum deles tivesse tido tempo de avisar os seus senhores acerca de sua presença. Um sorriso de prazer diante de tal perspectiva passa pelo seu rosto. Era bom quando eles sofriam por antecipação. Isso costumava tornar inimigos potencialmente difíceis de destruir em criaturas alucinadas pelo pânico e pelo ódio. Qualquer chance de fazê-los sofrer devia ser bem aproveitada.
Tendo como companhia apenas o ruído leve de seus passos, Ballesteros se permite um instante de reflexão. Por que, quando os malditos se tornavam confiantes, também se tornavam tão descuidados?! Não conseguiam aprender com seus erros? Talvez. Na verdade, a arrogância desmedida era a principal causa mortis entre os monstros. Eles sempre acreditavam, com a sua fé corrompida, que nenhum mortal seria páreo para eles, para suas táticas e truques sujos. Apesar de tudo o que a História registrava, eles continuavam firmes nessa convicção. O que só provava que eles tinham uma fatal tendência à subestimar seus inimigos...
A pistola é recarregada ao mesmo tempo em que o casaco se abre para revelar, colada ao seu corpo com a intimidade dos amantes, uma longa lâmina cor de prata. O punho era elaborado, curvilíneo, quase feminino. Ninguém diria que o velho Ramirez preferia uma arma tão delicada. Pelo visto, herdara o gosto por armas inadequadas do seu avô. Ele também tivera que lidar com sobrolhos franzidos por suas escolhas. Mas ele também via além do óbvio – e entendia que armas aparentemente erradas poderiam se tornar as melhores...
Dentro da sala de observação, Graham larga o pescoço de Alec e se afasta um passo para trás, uma raiva fria e surda congelando suas feições aristocráticas. Os olhos escuros fitam o jovem loiro com desprezo, enquanto, inclinando-se para frente, a mão sobre o pescoço machucado, os cabelos loiros caindo diante dos olhos enquanto ele choramingava uma reclamação. Damaris reconhece a expressão no rosto do líder – um gato cruel e distante que gostava de dar alguns segundos de ilusão aos pobres ratinhos antes de destroçá-los. De qualquer maneira, não havia tempo hábil para isso. Tentando aparentar uma serenidade inexistente, ela se aproxima de Graham, os dedos longos puxando-o delicadamente pelo punho do seu paletó Armani:
- Não temos tempo para isso. Não agora... Temos que sair daqui. Vc sabe disso...!- a última frase sai com uma nota inconfundível de queixa, pois Graham fitava a mão no seu antebraço como se fosse um inseto particularmente repugnante. - Ballesteros matará as presas e nos livrará de um problema maior. Mas nós morreremos antes delas, se permanecermos aqui. - a bela mulher usa o seu tom de voz mais sedutor e convincente, na esperança de chamar o líder à razão. Alec recolhia o laptop com gestos bruscos, a mágoa mto evidente no seu rosto. Seria possível que nem mesmo sob a ameaça de serem destruídos seus companheiros conseguiam colocar o ego um pouco de lado?! Damaris se exaspera: - Jamais pensei que Georgianne e Bardolph teriam mais presença de espírito do que vocês!!
- Covardes, é o que são. - a voz roufenha e carregada de crítica de N’bae é perfeitamente audível enquanto ele se ergue com auxílio de seu cajado. - Sempre soube disso...
- Vc sempre sabe de tudo, N’bae. Devia ter previsto também que isso acabaria mal!!- Damaris exclama, sua fleuma sendo lentamente consumida por seu desagrado. Sua intervenção faz com que Bardolph aperte Georgianne com mais força contra o seu peito largo. Ele estava pronto a soltar a sua querida menina para transformar os ossos velhos do africano em pó, por sua ousadia. O gigante ruivo não costumava concordar com Damaris, mas, naquele momento, ela tinha razão... Georgianne sussurra algo que apenas ele pode escutar, e ele acena com a cabeça, em concordância. Assim, com a menina bem acomodada em seu braço, Bardolph se encaminha para a porta que os conduziria para outro lugar, além dali, em segurança.
Porém ele não se move com a rapidez necessária. A porta principal se abre com o que parece ser uma pequena explosão de fumaça. Uma onda de cheiro acre se espalha, irritando olhos e narinas sensíveis. Os barulhos e a comoção não são suficientes para fazerem um silvo agudo e coletivo passar despercebido – como se, subitamente, um viveiro cheio de cobras protestasse contra a invasão.
Mas não eram cobras, e sim os observadores, os autores do som. Com as presas saltadas e os olhos vermelhos, as mãos crispadas em garras, eles se preparam para revidar o ataque daquele serzinho humano e insignificante. Apenas um deles não poderia derrotá-los, não importava o quanto fosse habilidoso ou especial. Ainda mais enfurecidos pelo que consideravam uma ousadia, o grupo se agita, como um único e grande animal. O som de tiros interrompe o alarido, e Bardolph pressente o impacto das balas especiais antes mesmo delas perfurarem a sua carne e seus pulmões. Aquilo não era suficiente para matá-lo, mas era mais do que bastante para provocar uma onda de medo no rostinho miúdo de Georgianne. A menina contém uma exclamação assustada, os olhos mto arregalados ressaltados por sua palidez. Bardolph meneia a cabeça, como a dizer que tinha tudo sob controle – e, com um movimento do seu ombro contra a porta secreta, ele faz com que ela se abra, garantindo-lhes uma saída segura. E ele manteria essa saída segura pelo tempo que fosse possível. Uma vez dentro do corredor, ele ergue a perna e a fecha mais uma vez, o solado de sua bota gasta se chocando contra a folha pesada com o desagradável som de uma sentença. Os demais poderiam se virar sem ele.
Dentro da sala, o festival de tiros continuava. Incapacitar para matar. Separe sempre as cabeças dos corpos. Faça com que se distraiam e se enfureçam, pois assim todos os cuidados são perdidos. A lâmina encontra a carne velha do africano. Este aqui era antigo e delicioso. Ballesteros sente a energia bruta contida pelo corpo encarquilhado se esvair e cobrir a sua espada como mel, o choque deixando seus dedos momentaneamente adormecidos. Ainda não estava morto, mas o encontro de sua corrupção com a pureza do metal consagrado seria fatal. Seria apenas questão de segundos. E a morte de cada um do grupo diminuía o poder dos demais. Ballesteros estudara. Não era idiota. Sabia que essas criaturas possuíam estranhos laços. E era o seu papel cortar cada um deles. Tornando assim a sua espada poderosa...


1 Comments:
E então, a ação começa realmente...
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