Caçada e Fuga

A multidão e a música enchiam o exterior da prisão e da sala de observação. Era sexta à noite, e em cada espaço livre daquele lugar havia um bar, um pub, uma boate ou armadilha para jovens. Enfim, com a quantidade de tipos e tribos diferentes que faziam a área de cerca de cinco quarteirões ferver, as figuras bizarras não chamavam realmente a atenção. Não mereciam mais do que uma olhada, se tanto.
Uma pessoa vestida de negro, com um casaco enorme que a deixava mais miúda, sorri diante de tal constatação. Monstros estúpidos. Achavam mesmo que podiam vestir as suas peles de cordeiro e ocultar-se no meio do rebanho barulhento. Sempre ouvira falar que os monstros eram seres extremamente inteligentes, mas isso devia ser nos velhos tempos. Ou será que eles não compreendiam que o disfarce que lhes servia podia ocultar também outras garras afiadas, outros monstros?
“Não que eu seja um monstro”. O pensamento foi embora tão rápido quanto surgiu. Não, não era um monstro. Era um soldado treinado para caçá-los e destruí-los. Nada mais, nada menos, só isso. Considerem como um negócio de família. Sabia fazer aquilo, e sabia fazer aquilo bem. Captar os pequenos sinais. As evidências deixadas de forma descuidada. Farejá-los. Apanhá-los quando eles faziam um movimento tolo, levados pelo tédio que preenchia cada segundo de suas vidas longas demais...
Os dedos acariciam o punho da arma por sobre o casaco. Sabia que a peça tinha cabo de madrepérola e o símbolo de sua família entalhando de maneira primorosa na superfície pálida. Fora um presente de aniversário. Não queira saber que tipo de família dá de presente uma Glock 33 modificada, calibre .357, num aniversário de 14 anos. E fora a sua companheira fiél de extermínio desde então. Seus irmãos viviam fazendo piadinhas sobre a sua escolha, mas não importava. Podia ser considerada uma arma leve para o fim que era usada, mas era a que, na sua opinião, era a mais confortável e confiável. Às vezes, desenvolvemos certas afinidades com objetos que só podem ser justificadas pelo valor sentimental destes...
Enfim, eram presentes e piadas assim que faziam os membros de sua família tão peculiares.
Era interessante ser peculiar...
Seus movimentos era fluidos, discretos. Logo o espaço era localizado e analisado. Com sorte, o serviço todo não duraria mais do que dez minutos. Talvez quinze, se as presas dos monstros tivessem energia o suficiente para gritar e se debater, ainda. Não apreciava aquela parte de suas obrigações; afinal, as presas ainda eram vítimas inocentes, assustadas... Não faziam idéia do que iriam se tornar. De que tipo de terror os aguardava. Não entendiam que era melhor morrer de forma rápida e não muito dolorosa.
De qualquer maneira, matá-las era não só necessário, mas também um ato de piedade.
Com um suspiro, a obrigação e o treinamento tomam conta de seu corpo, deixando os pensamentos e dúvidas do lado de fora. A humanidade se resguardava, para que a máquina assassina surgisse. Aquele era o seu trabalho, e cada instante era apreciado como a arte delicada e especializada que era.
Dentro da sala, Alec ergue violentamente a cabeça. O mesmo sentimento parece se espalhar entre os demais, que se remexem, inquietos, pressentindo algo errado. Georgianne começa a recolher o seu material, silenciosamente, os olhos estreitados numa expressão apreensiva que não combinava com o seu rostinho infantil. Claro que ela sinalizara. Mas não queria morrer. Não ainda. Queria apenas... Brincar um pouco. E tornar a situação mais divertida ainda. Seus olhos escuros procuram o rosto de Bardolph. Apesar de meio oculto pela caneca enorme de cerveja, ele meneia a cabeça ruiva num gesto fugaz e cúmplice. Georgianne sorri. Sim... As coisas iriam se tornar muito interessantes, muito em breve...
- Nossa segurança foi quebrada. - a voz jovem de Alec oscila entre um tom grave e agudo, traindo a sua incredulidade. Olhos cheios de raiva e medo mal disfarçados se voltam na sua direção. Mas não tão rápido quanto o líder. Quando Alec ouve o som do seu laptop atingindo o chão, os dedos de Graham já estavam crispados em seu pescoço, pressionando-o com força contra o encosto do sofá caro e afundando a sua traquéia sem sinal de piedade. Aquilo não o mataria, mas, sem dúvida, machucava bastante...
- E como vc explica isso, Alec?- a voz de Graham era fria e baixa. Atrás deles, os demais se moviam de maneira apressada. Bardolph soltou a caneca de cerveja e, inclinando-se, trouxe Georgianne para a segurança de seus braços, largos como troncos de árvore. O rapaz loiro gorgolejou uma resposta incompreensível. Damaris, fitando a tela da TV, notava, incrédula, que as presas pareciam estar tendo sucesso em arrombar a porta.
Quanta coisa pode dar errado em dois minutos?!
Muitas, é o que ela conclui, quando finalmente compreende o que Alec estava tentando dizer:
- Ack... Teros... S-só pode ser Ballesteros... Ninguém maargh... -a menção do nome tão temido faz Damaris sentir algo se congelando dentro dela. Era um pesadelo. O que começara como uma aposta inocente poderia acabar com a destruição deles. A bela mulher engole em seco, tentando organizar seus pensamentos, enquanto a idéia vaga de que não deviam perder tempo agredindo uns aos outros e facilitar assim o trabalho de Ballesteros passa pela sua cabeça...
Dentro do porão, indiferentes à aflição de seus algozes, o grupo de amigos tentava se safar daquela situação estranha. Beau fitava o corpo de Adam com expressão desolada, enquanto Mandy murmurava tolices para Tatj, na esperança de despertá-la. Eric e Kary analisavam a porta, na esperança de descobrir o que fazer. O rapaz espalma a mão na madeira. Era obviamente firme, a despeito de marcas profundas que pareciam ter sido feitas por um machado... Mesmo com cicatrizes, parecia inabalável e confiante de que os manteria ali. Dobradiças enormes, que se projetavam no ar como um desafio metálico e silencioso. Ele faz força, na vã esperança de sacudi-la. Nada acontece e ele murmura um palavrão, frustrado.
Os olhos escuros de Kary deslizam pela superfície de madeira, uma, duas vezes, até q ela cruza os braços e se pronuncia com sua voz áspera:
- Se arrancarmos a porta das dobradiças, nós sairemos daqui.
- Kary, não temos ferramentas. Acha q eles deixariam um pé de cabra ou uma chave de fenda dando sopa por aqui?! - e ali acabava o conhecimento sobre instalação de portas que Eric detinha. Seu pai era quem gostava de fazer consertos em casa – e sempre reclamava q Eric não era capaz sequer de segurar a lanterna no ângulo certo. - A menos que você tenha desenvolvido super força, é claro. - Eric não sabia de onde vinha aquele ímpeto de provocar Kary. Talvez, deixando evidente a fraqueza dela, diminuísse suas próprias falhas. “Que hora para bancar o psicólogo”, ele pensa, aborrecido consigo mesmo.
Algo muito similar a ódio brilha nos olhos de Kary. Mais uma vez, aquela vontade de quebrar algo – nesse caso, alguém – com suas próprias mãos parece embriagá-la, momentaneamente. Não, era mais do que embriaguez. Era uma fome, uma vontade que quase a cegava, tamanha a ânsia de satisfazê-la. Podia se ver chutando Eric. O rosto dele torcido sob a sua bota. Carne contra couro. Ele sangraria, o lábio inferior cheio vermelho de sangue, o cavanhaque tingido de rubro. Ela o levantaria pela frente daquela odiosa camiseta do Motorhead e...
A cena seguinte que estoura em sua cabeça é tão chocante, tão absurda, que Kary pisca, suas feições tornando-se pálidas. Sequer sabia que conseguia IMAGINAR aquele tipo de coisa..!! E, curiosamente, não se sentia envergonhada por isso, e sim... Remotamente excitada. Como se excitação pudesse fazer parte do contexto, naquele exato instante. Decididamente, não, não era adequado. Ou correto. Ou...
A moça abaixa o olhar, fitando as botas por um segundo antes de desviar o olhar novamente para a porta. Não queria olhar para Eric nesse instante. Sabia q a expressão dele era de impaciente surpresa. Pensar que parte dela preferia o amigo sangrando e excitado era... Selvagem demais. Na esperança de trazer alguma racionalidade para o momento, ela diz, num tom de voz estranhamente controlado, como se ela medisse as palavras:
- Se forçarmos o suficiente, eu e você, podemos arrancar as dobradiças. O que nos custar tentar, Eric?! Não é como se tivéssemos algo melhor pra fazer. Não quero ficar esperando para ver o que acontece. Eu NÃO QUERO. - uma onde de urgência coloriu a última observação. Algo dentro de Kary vibrava ansiosamente, como se gritasse para que ela saísse dali, o mais rápido possível.
Era difícil se colocar contra tal argumentação, Eric reconhece. Ele sentia a mesma urgência fazendo o sangue pulsar com mais rapidez. O fato de que tinham que sair dali se tornava mais e mais premente. Tentando ignorar o mundo de expressões inesperadas q haviam cruzado momentaneamente a face de Kary, ele concorda com a cabeça, fitando os outros por sobre o ombro antes de flexionar os dedos e colocar-se ao lado da morena. Assim, ambos fecham as mãos sobre as dobradiças – Kary com a superior, Eric, agachado, com a inferior, apto a sustentar o pesa da porta caso ela cedesse. Ambos se entreolham antes de trocar um quase imperceptível aceno de concordância. Como se fossem um só, Eric e Kary forçam as peças de metal.
Era um plano louco, movido pelo desespero e que ambos sabiam que certamente iria falhar miseravelmente.
A surpresa de ambos é a mesma, quando, por alguma razão ignorada, o metal começa, de maneira lenta, mas definitiva, a ceder sob seus dedos...


1 Comments:
Hehehehe... Mutantes contra vampiros????? Aff... to delirando aqui. Deixa eu continuar a me esbaldar. Segura ai
Post a Comment
<< Home