6.10.06

Fim da Caçada...




Lluvia Ballesteros tentava, de maneira alucinada, buscar todas as lições de sobrevivência que tinha recebido através de anos de treinamento. Tais como expandir ao máximo os músculos do pescoço, tentar acertar os olhos da criatura com as unhas, recuperar a sua arma. Porém, as possibilidades de escapatória sumiam tão rapidamente do seu cérebro quanto o ar de seus pulmões. Uma parte dela percebe que os dedos afrouxam, o punho da espada rachada escapando-lhe. A lâmina cai no chão polido com um som musical. Agora era apenas ela, aquela besta em forma humana e os membros de sua matilha... Mas esses últimos eram, mais uma vez, meros observadores. Nenhum deles parecia disposto a contrariar o homem que a observava, suspendendo-a pelo pescoço em pleno ar, sem dar mostras de cansaço. Se ao menos ele a tivesse apoiado contra a parede sólida, ela pensa num lamento. Talvez tivesse uma chance de usar os pés calçados em botas para empurrá-lo.

Seus olhos estavam quase perdendo o foco, mas ela consegue notar que o monstro era bonito. Não parecia uma aberração natimorta da natureza; aparentava certa de quarenta anos, tinha cabelos negros e abundantes, pele pálida, mas não ao ponto de ser considerado inumano. Os olhos eram lascas de ônix, e as sobrancelhas bastas se franziram um pouco, enquanto ele inclinava o queixo másculo de um lado para o outro, analisando-a com a atenção que um gato dedicaria a um ratinho diferente dos demais. O movimento que os dedos firmes fazem, movendo-a como se ela não tivesse peso, faz ondas de dor explodirem em vários lugares do seu corpo. Será que o braço dele não se cansaria da posição forçada, ela pensa, encarando-o com uma expressão que desejava firmemente parecesse desafiadora, embora ela só conseguisse se sentir apavorada.

Graham parece finalmente se dar por satisfeito com a sua análise, um sorriso sardônico curvando os lábios cheios. Ainda no chão e olhando a caçadora com ar de mal contida fúria, Alec apanha o laptop e se dedica a desligar os alarmes, com movimentos rápidos, fluidos. Não precisavam chamar mais atenção do que certamente já tinham atraído. O rapaz loiro nota que suas mãos estavam trêmulas. Talvez pelo choque de ver N’bae virar pó (mais do que metaforicamente falando) diante deles. Fazia tempo desde que um dos membros do Círculo perecera pela arma de um Caçador. A força de N’bae estava fazendo falta, naquele momento. Tentando se controlar, ele digita uma série de comandos, mas os olhos azuis permaneçam atentos, acompanhando a contenda trás da proteção da tela de LCD. Damaris passa as mãos de unhas perfeitamente manicuradas pela roupa, alisando rugas e batendo a pólvora residual dos tiros. Seu vestido de seda branca estava arruinado para sempre. Incrivelmente, isso não parecia importante agora. Tinham que sair dali, seguir o exemplo de Bardolph e Georgianne. Irônico que os dois membros mais desregrados daquele grupo tivessem sido os primeiros a salvar a própria pele. Irritada com o que considerava uma falha pessoal, ela tenta fazer o líder se apressar:
- Temos que ir.


- Temos mesmo, a polícia está vindo para cá. - Alec comunica, fechando o laptop e colocando-se de pé, nervosamente. Seu cabelo loiro e com aparência de sujo caia diante dos seus olhos, enquanto ele movia-se nervosamente de um pé para o outro. - Não posso alterar as informações, Graham. É muito tarde. Eles já estão a caminho, já disse... - o que começara como uma afirmação relativamente controlada ia tornando-se rapidamente uma sucessão de desculpas dita em um tom cada vez mais rápido e mais agudo. Aquilo irrita Damaris ainda mais. Aproximando-se de Graham, ela diz com uma impaciência deselegante que se tornava deslocada na sua pessoa:

- Já que você não nos dá ouvidos, faça logo o que quer fazer e vamos embora. - o tom gelado com o qual as palavras são proferidas faz algo dentro das entranhas de Lluvia virar pedra. Embora a frase fosse simples, parecia carregada de um sentimento de definitiva inexorabilidade. Por um segundo, ela pensa em suplicar piedade à mulher de olhos verdes, mas Damaris se afasta, como se a cena fosse cansativa demais para ela. Alec se apressa em se colocar ao seu lado, o computador portátil bem seguro nos seus braços. Com um gesto discreto, ela aciona outra das portas secretas e tenta dar um passo para dentro do corredor escuro que ela ocultava. Sua intenção é frustrada por Alec, que força a entrada no espaço protegido sem a menor sombra de educação. Dando um suspiro impaciente, ela se volta para fitar as costas de Graham, as sobrancelhas bem feitas arqueadas de maneira interrogativa.

Graham franze os lábios numa expressão que traduzia uma ponta de tédio e aborrecimento. Como se tivesse que interromper uma atividade especialmente prazerosa. Ele volta a encarar Lluvia, e a moça percebe que as íris dos olhos escuros mudavam de cor. A cor de chocolate meio amargo ia sendo lentamente substituída por um tom sanguíneo, denso, de vermelho. Quando ele começou a falar, com o seu sotaque britânico e tom polido, ela pôde ver as pontas das presas peroladas sobressaindo-se sob os lábios que se moviam:

- Por conta da sua visita inesperada e de todo o resto, terei que me apressar. É uma pena. Afinal, já faz algum tempo desde que eu tive a chance de me divertir com um dos membros de sua família. Detesto ter que fazer meu trabalho de forma porca, mas você não parece se incomodar com isso, não é? Com coisas mal feitas. - a pressão aumenta. Era como se uma garra de aço comprimisse a garganta de Lluvia. Ela não conseguia mais respirar. Flashes de luz negra e branca estouravam atrás de suas pálpebras. Ela estava morrendo, covardemente pronta para abraçar a escuridão, que faria aquela dor parar...

A esperança, porém, lhe trai. Ela se sente horrivelmente desperta quando os seus ouvidos registram o som de algo se partindo, como uma noz sendo esmagada sob o pé de alguém. A dor excruciante que sentiu a fez ver que a noz era ela... Ou melhor, parte de sua coluna. Ela não sentia mais as pernas, mas, aparentemente, toda a dor havia sido transferida apara algum lugar perto de sua cabeça. Ela gritou, ou achou que gritou, enquanto o sorriso de Graham aumentava. Como uma criança maldosa, ele fez o som se repetir duas, três vezes, até Damaris o puxar pelo braço livre:

- Chega. Já chega!! Não consegue escutar as sirenes?! Já devíamos ter saído daqui! Larga isso!!- ela bate, com a palma aberta, no braço que sustentava o "isso" - o corpo agonizante de Lluvia.- Ela não viverá o suficiente para falar nada. E morrerá de uma maneira horrível e sozinha. - aparentemente, a solidão deveria ser o pior dos castigos, na opinião da bela mulher. Finalmente vendo-se forçado a concordar, Graham solta a caçadora um gesto breve, um simples abrir de mão - e Lluvia cai aos pés dele com a deselegância de um títere cujas cordas haviam sido subitamente cortadas. Parecia mesmo uma boneca de trapos meio oculta pelo casaco enorme, respirando de maneira barulhenta, os olhos rolando nas órbitas nos estertores da morte. As íris castanhas olham para Graham de maneira enevoada, enquanto ele se inclina numa sátira de reverência e diz:

- Dê lembranças de Graham Marrick aos seus parentes no inferno, ratinha Ballesteros. - a última imagem que a consciência de Lluvia capta são os sapatos caros do líder, diante de seu nariz, enquanto ele segue na direção dos demais. O som da porta secreta se fechando é quase inexistente, mas, para os ouvidos à beira da morte do corpo caído que um dia fora uma aprendiz de caçador, parece muito alto. Como a tampa de um caixão, como a primeira pá de terra que cai dentro da sepultura. Ela definitivamente estava morrendo.

Mas estaria morrendo sozinha? É o derradeiro pensamento lógico antes da garota adentrar a abençoada escuridão.


- Eles estão bem. - a voz de Georgianne comunica, de maneira hesitante, na escuridão do túnel. Não que a iluminação fizesse diferença para ela ou Bardolph, já que podiam enxergar todos os detalhes do caminho e além. – Conseguiram sair de lá.

- Quem, pequenina?-a voz do gigante soa rouca. Aquelas malditas balas especiais tinham feito um estrago que levaria algum tempo para ser consertado. Ele sentia seu velho pulmão ressentir-se dos ferimentos. Mas não soltaria a menina por nada neste mundo – ou de qualquer outro... A risadinha que ela dá meio que lhe conforta. Ela tivera aquele dom sobre ele desde o primeiro instante que segurara o corpinho miúdo nas suas manoplas. Quando Georgianne sorria, algo quente se expandia dentro do seu peito avantajado. Talvez fosse amor, o mais puro tipo de amor que feras selvagens como ele podiam sentir.

- Como assim, quem? Quem é realmente importante. Embora os outros também estejam prontos para contar mais essa história. - a cabeça de cabelos cacheados se apóia no ombro largo, e era impossível não notar o contraste entre força e delicadeza que fluíam de um para o outro, de maneira intrigante. - Eles ainda têm alguns dias...

- Assim como nós. Teremos tempo para nos preparar. E eles, para se despedir. - é o único comentário do homem. A menina se limita a acenar em concordância, aconchegando-se contra seu protetor de maneira que traduzia uma absurda confiança, que só as crianças eram capazes de ter por alguém. Bardolph suspira. Jamais a decepcionaria.

1 Comments:

Blogger Sutekh said...

Como sempre, você sabe como demonstrar sua maestria com as palavras. Uma verdadeira artesã, sabendo transformar meras letras em tesouros agradáveis aos olhos e ao pensamento! Sou seu fã, tia! ;)

11:36 PM  

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