Pesquisa Xt2
Pesquisa de opinião pro xt2...
Bem vindo à minha trama...Criei esse blog p/desenvolver uma idéia q está brincando há algum tempo na minha mente. Enjoy! Os posts devem ser lidos do mais antigo p/o mais novo.

- Hey, peraí, Mandy, NÓS coisa alguma. Se alguém quiser ficar no hospital, eu não me importo de levar, mas vou ser egoísta e ir pra minha casa na seqüência. Os únicos remédios que preciso são um banho longo e uma cama com lençóis limpos. Eu não estou com a menor vontade de explicar para ninguém COMO chegamos nessa situação, especialmente pq nenhum de nós SABE como isso aconteceu. - Eric aponta o óbvio, irritado. Com um gesto de cabeça, ele sinaliza para Kary abrir o carro – e pela primeira vez naquela noite, a amiga parecia feliz de obedecer. Mandy arregala os olhos diante da negativa peremptória:
- Mas... E quanto ao Adam?! Nós não podemos simplesmente ir embora e deixar para trás um amigo... - “morto”. Seus lábios formam a palavra, mas a garganta não consegue emiti-la. Odiava saber que ela tinha razão, Eric percebe. Acomodando Tatj no banco de trás, ele pensa em algo para dizer, mas Beau é mais rápido:
- Já sei o que fazer. Espera, espera só um pouco... –ele dá um sorriso de criança que acabara de ter uma idéia genial para alcançar o pote de biscoitos na prateleira mais alta. O rapaz se afasta dos amigos com um gesto estranhamente fluido, como se os tênis mal tocassem as placas de cimento da calçada. Aquilo não parecia ralmente auspicioso, beau parecia quase... feliz. Vencida, Mandy se acomoda ao lado de Tatj e Kary as acompanha, com pressa para sair dali. Um murmúrio escapa dos lábios da ruiva:
- Minha cabeça dói... -Tatj se queixa, se forçando a abrir os olhos verdes. O ambiente à sua volta entra em foco de maneira brutalmente rápida, que faz um mundo luminoso explodir nos cantos das suas pálpebras. Aquilo também doía. E assim ela fecha os olhos mais uma vez, refrescando a mente com a momentânea e bem vinda obscuridade. O que diabos...?! Como se ela tivesse pronunciado a pergunta em voz alta (não achava que tivesse) , Kary se apressa em explicar:
- Aconteceu uma coisa estranha, Tatjana. Mas nós já estamos indo pra casa. Eric?- o tom era urgente e inquisitivo. Com o cotovelo direito apoiado no teto do carro e a outra mão segurando com força a moldura da porta, Eric acompanha Beau deslizar até uma cabine de telefone na outra esquina. Pelo modo como ele se demorava, certamente era uma das raras cabines de telefone que funcionam... O que deveria ser considerado um sinal de boa sorte, à que quase tudo por ali estava depredado ou a um passo disso. A energia da juventude procurava coisas para destruir pelo prazer da destruição em si, sem grande discriminação se os objetos poderiam eventualmente ser úteis ou não. Deixando de lado a filosofia, Eric flexiona o joelho e se move, ocupando o lugar do motorista enquanto Beau fazia o mesmo do lado oposto. Erguendo os polegares, o rapaz comunica:
- A polícia estará aqui em algum tempo. Em pouco tempo, pois parece que uns alarmes dispararam na mesma área. - ele não explica como tinha conseguido aquela informação
Dando um longo olhar para Beau (e não conseguindo ignorar uma voz interior que alertava que talvez fosse recomendável algum médico examinar a cabeça dele), Eric dá a partida no carro e questiona, manobrando para sair:
- Então, alguém quer ir ao hospital? Mandy?- ele pressiona, o silêncio se adensando entre eles e ocupando o lugar que Adam deixara vago. Com um misto de raiva e resignação, a loira resmunga uma negativa, e é como se um suspiro coletivo de alívio fosse liberto dentro do Plymouth. Concentrando-se na direção, Eric deixa que as idéias reconfortantes de um banho e uma cama macia invadissem a sua mente, calando os questionamentos realmente preocupantes.
O que tinha acontecido com eles? Por que alguém mataria Adam? Por que eles não conseguiam se lembrar dos detalhes...?
E qual era a razão para o mundo estar parecendo tão... Diferente aos seus olhos?

As luzes brancas dos postes ferem, por um segundo, os olhos de Eric quando ele chega ao último degrau. Ele olha em volta, e por um instante, a normalidade do ambiente – a cacofonia de muitas músicas e vozes misturadas, os roncos dos motores dos carros e os odores de suor, cigarro e cerveja – pareceu realmente alienígena à sua percepção. Era como se ele visse um quadro abstrato de cores muito vivas e formas muito nítidas, mas que não fazia nenhum sentido
Por que ele sentia que aquela impressão parecia tão tênue quanto uma bolha de sabão?!
Seus devaneios são mais uma vez interrompidos por Beau. O amigo o cutucava com o cotovelo, sem a menor paciência:
- Eric. Seu carro. Cadê ele? Cadê?- a pergunta é feita de maneira ansiosa. Mandy desistira de caminhar manquitolando e tirava o Jimmy Choo restante, jogando-o na coxia com um pouco caso impressionante. Os pés pálidos, de pele muito fina, pareciam obscenamente nus contra a calçada imunda. Kary mantinha os braços cruzados para esconder o tremor que, de vez em quando, agitava o seu corpo; o seu suéter escuro estava cheio de sujeira. A blusa havaiana de Beau, antes azul, estava tingida agora por uma feia cor de cobre, os abacaxis da estampa parecendo rubros e doentios, graças ao poliéster manchado. Aliás, sob a luz fluorescente, Eric podia ver que os amigos apresentavam uma coleção variada de machucados e as roupas faziam com que eles parecessem ter saído de uma batalha. De certo modo haviam saído, Eric concede a si mesmo, uma ponta de raiva por não saber exatamente como tinham ficado naquele estado formigando dentro de si. Aquele vácuo mental era desagradável não apenas por simplesmente existir, mas também pq ele tinha a nítida impressão que aquela memória explicaria tudo. Tudo mesmo, inclusive pq ele estava vendo detalhes que teriam passado despercebidos até horas atrás. De alguma maneira, tudo parecia mais intenso e vivo – era como ter passado os últimos vinte e três anos de vida com uns óculos de lentes escuras no rosto, e após o incidente (“é, vamos chamá-lo assim por enquanto”, diz a consciência do rapaz em uma voz pacificadora), essas lentes tivessem sumido. O gemido de Tatj, em seus braços, faz com que Eric volte a fitar Beau:
- Não sei... Estacionamos perto do bar. – ele responde. Kary dá uma olhada em redor, tentando se localizar. A moça percebe que o grupo estava começando a chamar atenção. Os machucados pareciam estar se evidenciando. Sem a menor vontade de dar explicações a estranhos (ou a polícia), ela observa com mais atenção, até finalmente conseguir enxergar o inconfundível “ericmobile”:
- Ali!- ela exclama com um inesperado entusiasmo que faz a sua voz tremer. O Plymouth Barracuda 69, com o seu vermelho original de fábrica, frisos negros e pneus de banda branca era único e sempre chamava a atenção onde quer que estivesse. Ela lembrava de quanto tempo Eric e o pai haviam gasto restaurando aquele carro. Anos... Verões e verões, quando o amigo dedicava todas às suas manhãs a arrancar o carro das garras do tempo e da decadência. Funcionara, e era provavelmente a coisa mais preciosa do mundo para Eric. Apontá-lo, encontrá-lo, encheu Kary de uma estúpida sensação de vitória, como se tivesse encontrado algum tesouro. Ela torce para que a nota estranha na sua voz ter passado despercebida, enquanto eles se movem, de maneira distintamente... Similar; o grupo de amigos parecia um bem treinado pelotão em miniatura, caminhando com passos apressados, mas, mesmo assim, sincronizados. Ela se inclina diante da roda traseira e os dedos longos tateiam o alto do pneu, logo encontrando o chaveiro em forma da garrafa de Crown Royal e as chaves do Plymouth. O contato com o metal frio e pontiagudo quase faz a moça chorar de alívio. O hábito absurdo de Eric lhes garantiria uma saída dali, já que o resto dos seus pertences parecia ter sumido ao mesmo passo de suas lembranças recentes. Kary inclina a coluna e balança as chaves prateadas diante do rosto, com um meio sorriso, que some quando Mandy diz, hesitantemente, em um sussurro:
- Temos que avisar a polícia. Temos... Quero dizer, o Adam... - ela empalidece ainda mais diante da expressão dos amigos, pousando as mãos sobre o teto do carro:- TEMOS que fazer alguma coisa. - o tom sai subitamente carregado de determinação, provocando uma tensa troca de olhares. - E teremos que ir ao hospital também. - ela acrescenta de maneira quase banal.

Lluvia Ballesteros tentava, de maneira alucinada, buscar todas as lições de sobrevivência que tinha recebido através de anos de treinamento. Tais como expandir ao máximo os músculos do pescoço, tentar acertar os olhos da criatura com as unhas, recuperar a sua arma. Porém, as possibilidades de escapatória sumiam tão rapidamente do seu cérebro quanto o ar de seus pulmões. Uma parte dela percebe que os dedos afrouxam, o punho da espada rachada escapando-lhe. A lâmina cai no chão polido com um som musical. Agora era apenas ela, aquela besta em forma humana e os membros de sua matilha... Mas esses últimos eram, mais uma vez, meros observadores. Nenhum deles parecia disposto a contrariar o homem que a observava, suspendendo-a pelo pescoço em pleno ar, sem dar mostras de cansaço. Se ao menos ele a tivesse apoiado contra a parede sólida, ela pensa num lamento. Talvez tivesse uma chance de usar os pés calçados em botas para empurrá-lo.
Seus olhos estavam quase perdendo o foco, mas ela consegue notar que o monstro era bonito. Não parecia uma aberração natimorta da natureza; aparentava certa de quarenta anos, tinha cabelos negros e abundantes, pele pálida, mas não ao ponto de ser considerado inumano. Os olhos eram lascas de ônix, e as sobrancelhas bastas se franziram um pouco, enquanto ele inclinava o queixo másculo de um lado para o outro, analisando-a com a atenção que um gato dedicaria a um ratinho diferente dos demais. O movimento que os dedos firmes fazem, movendo-a como se ela não tivesse peso, faz ondas de dor explodirem em vários lugares do seu corpo. Será que o braço dele não se cansaria da posição forçada, ela pensa, encarando-o com uma expressão que desejava firmemente parecesse desafiadora, embora ela só conseguisse se sentir apavorada.
Graham parece finalmente se dar por satisfeito com a sua análise, um sorriso sardônico curvando os lábios cheios. Ainda no chão e olhando a caçadora com ar de mal contida fúria, Alec apanha o laptop e se dedica a desligar os alarmes, com movimentos rápidos, fluidos. Não precisavam chamar mais atenção do que certamente já tinham atraído. O rapaz loiro nota que suas mãos estavam trêmulas. Talvez pelo choque de ver N’bae virar pó (mais do que metaforicamente falando) diante deles. Fazia tempo desde que um dos membros do Círculo perecera pela arma de um Caçador. A força de N’bae estava fazendo falta, naquele momento. Tentando se controlar, ele digita uma série de comandos, mas os olhos azuis permaneçam atentos, acompanhando a contenda trás da proteção da tela de LCD. Damaris passa as mãos de unhas perfeitamente manicuradas pela roupa, alisando rugas e batendo a pólvora residual dos tiros. Seu vestido de seda branca estava arruinado para sempre. Incrivelmente, isso não parecia importante agora. Tinham que sair dali, seguir o exemplo de Bardolph e Georgianne. Irônico que os dois membros mais desregrados daquele grupo tivessem sido os primeiros a salvar a própria pele. Irritada com o que considerava uma falha pessoal, ela tenta fazer o líder se apressar:
- Temos que ir.
- Temos mesmo, a polícia está vindo para cá. - Alec comunica, fechando o laptop e colocando-se de pé, nervosamente. Seu cabelo loiro e com aparência de sujo caia diante dos seus olhos, enquanto ele movia-se nervosamente de um pé para o outro. - Não posso alterar as informações, Graham. É muito tarde. Eles já estão a caminho, já disse... - o que começara como uma afirmação relativamente controlada ia tornando-se rapidamente uma sucessão de desculpas dita em um tom cada vez mais rápido e mais agudo. Aquilo irrita Damaris ainda mais. Aproximando-se de Graham, ela diz com uma impaciência deselegante que se tornava deslocada na sua pessoa:
- Já que você não nos dá ouvidos, faça logo o que quer fazer e vamos embora. - o tom gelado com o qual as palavras são proferidas faz algo dentro das entranhas de Lluvia virar pedra. Embora a frase fosse simples, parecia carregada de um sentimento de definitiva inexorabilidade. Por um segundo, ela pensa em suplicar piedade à mulher de olhos verdes, mas Damaris se afasta, como se a cena fosse cansativa demais para ela. Alec se apressa em se colocar ao seu lado, o computador portátil bem seguro nos seus braços. Com um gesto discreto, ela aciona outra das portas secretas e tenta dar um passo para dentro do corredor escuro que ela ocultava. Sua intenção é frustrada por Alec, que força a entrada no espaço protegido sem a menor sombra de educação. Dando um suspiro impaciente, ela se volta para fitar as costas de Graham, as sobrancelhas bem feitas arqueadas de maneira interrogativa.
Graham franze os lábios numa expressão que traduzia uma ponta de tédio e aborrecimento. Como se tivesse que interromper uma atividade especialmente prazerosa. Ele volta a encarar Lluvia, e a moça percebe que as íris dos olhos escuros mudavam de cor. A cor de chocolate meio amargo ia sendo lentamente substituída por um tom sanguíneo, denso, de vermelho. Quando ele começou a falar, com o seu sotaque britânico e tom polido, ela pôde ver as pontas das presas peroladas sobressaindo-se sob os lábios que se moviam:
- Por conta da sua visita inesperada e de todo o resto, terei que me apressar. É uma pena. Afinal, já faz algum tempo desde que eu tive a chance de me divertir com um dos membros de sua família. Detesto ter que fazer meu trabalho de forma porca, mas você não parece se incomodar com isso, não é? Com coisas mal feitas. - a pressão aumenta. Era como se uma garra de aço comprimisse a garganta de Lluvia. Ela não conseguia mais respirar. Flashes de luz negra e branca estouravam atrás de suas pálpebras. Ela estava morrendo, covardemente pronta para abraçar a escuridão, que faria aquela dor parar...
A esperança, porém, lhe trai. Ela se sente horrivelmente desperta quando os seus ouvidos registram o som de algo se partindo, como uma noz sendo esmagada sob o pé de alguém. A dor excruciante que sentiu a fez ver que a noz era ela... Ou melhor, parte de sua coluna. Ela não sentia mais as pernas, mas, aparentemente, toda a dor havia sido transferida apara algum lugar perto de sua cabeça. Ela gritou, ou achou que gritou, enquanto o sorriso de Graham aumentava. Como uma criança maldosa, ele fez o som se repetir duas, três vezes, até Damaris o puxar pelo braço livre:
- Chega. Já chega!! Não consegue escutar as sirenes?! Já devíamos ter saído daqui! Larga isso!!- ela bate, com a palma aberta, no braço que sustentava o "isso" - o corpo agonizante de Lluvia.- Ela não viverá o suficiente para falar nada. E morrerá de uma maneira horrível e sozinha. - aparentemente, a solidão deveria ser o pior dos castigos, na opinião da bela mulher. Finalmente vendo-se forçado a concordar, Graham solta a caçadora um gesto breve, um simples abrir de mão - e Lluvia cai aos pés dele com a deselegância de um títere cujas cordas haviam sido subitamente cortadas. Parecia mesmo uma boneca de trapos meio oculta pelo casaco enorme, respirando de maneira barulhenta, os olhos rolando nas órbitas nos estertores da morte. As íris castanhas olham para Graham de maneira enevoada, enquanto ele se inclina numa sátira de reverência e diz:
- Dê lembranças de Graham Marrick aos seus parentes no inferno, ratinha Ballesteros. - a última imagem que a consciência de Lluvia capta são os sapatos caros do líder, diante de seu nariz, enquanto ele segue na direção dos demais. O som da porta secreta se fechando é quase inexistente, mas, para os ouvidos à beira da morte do corpo caído que um dia fora uma aprendiz de caçador, parece muito alto. Como a tampa de um caixão, como a primeira pá de terra que cai dentro da sepultura. Ela definitivamente estava morrendo.
Mas estaria morrendo sozinha? É o derradeiro pensamento lógico antes da garota adentrar a abençoada escuridão.
- Eles estão bem. - a voz de Georgianne comunica, de maneira hesitante, na escuridão do túnel. Não que a iluminação fizesse diferença para ela ou Bardolph, já que podiam enxergar todos os detalhes do caminho e além. – Conseguiram sair de lá.
- Quem, pequenina?-a voz do gigante soa rouca. Aquelas malditas balas especiais tinham feito um estrago que levaria algum tempo para ser consertado. Ele sentia seu velho pulmão ressentir-se dos ferimentos. Mas não soltaria a menina por nada neste mundo – ou de qualquer outro... A risadinha que ela dá meio que lhe conforta. Ela tivera aquele dom sobre ele desde o primeiro instante que segurara o corpinho miúdo nas suas manoplas. Quando Georgianne sorria, algo quente se expandia dentro do seu peito avantajado. Talvez fosse amor, o mais puro tipo de amor que feras selvagens como ele podiam sentir.
- Como assim, quem? Quem é realmente importante. Embora os outros também estejam prontos para contar mais essa história. - a cabeça de cabelos cacheados se apóia no ombro largo, e era impossível não notar o contraste entre força e delicadeza que fluíam de um para o outro, de maneira intrigante. - Eles ainda têm alguns dias...
- Assim como nós. Teremos tempo para nos preparar. E eles, para se despedir. - é o único comentário do homem. A menina se limita a acenar em concordância, aconchegando-se contra seu protetor de maneira que traduzia uma absurda confiança, que só as crianças eram capazes de ter por alguém. Bardolph suspira. Jamais a decepcionaria.

Graham não era o líder à toa. Naqueles poucos segundos desde que Ballesteros invadira a sala reservada, ele observara, contabilizara tiros, registrara que Bardolph e Georgianne tinham usado uma das saídas secretas (bloqueando-a, inclusive, como ele mesmo também teria feito – a sobrevivência era mais importante) e anotara mentalmente a morte de N’bae com desprezo e raiva. Não por perder um companheiro, mas pq, quando um deles encontrava o Destino Final, uma parcela de poder também abandonava os demais membros da Família.
E Graham odiava ceder poder, fosse à força ou solicitado de maneira gentil...
As sobrancelhas negras se franzem sobre os olhos escuros. Apesar da capa e da espada, quem quer que estivesse ali não era o Velho Ballesteros. Tinha um cheiro similar. Movia-se de uma maneira elástica e rápida demais, que o conhecido caçador já não era mais capaz. A percepção de que uma cria do Clã Ballesteros estava tentando firmar o seu lugar à custa do sangue dos seus faz o ser aristocrático sentir o acinte queimando sob a sua pele pálida. Logo aquele fogo se transforma
Ballesteros segurava a espada e a pistola. Não teria tempo hábil para recarregar a arma, percebe. Os monstros parecem notar a sua hesitação momentânea, os rostos belos e ferozes abrindo-se em sorrisos de antecipação. Talvez tivesse conseguido eliminar o velho por pura sorte... Já que, apesar de ter causado alguns machucados e de um maldito ruivo ter fugido, não conseguira mais nenhuma baixa. Os remanescentes o fiatavam com olhos de fogo e ar assassino. Agora estava ofegante, sentindo o peito subir e descer sob a capa escura, os cabelos molhados de suor sob o chapéu, colando-se o seu couro cabeludo. Os dedos seguram com mais força o punho trabalhado da espada. A voz de sua consciência (que soava exatamente como o seu avô) lhe adverte de que um erro crasso e básico havia sido cometido. Subestimara seus inimigos e superestimara as suas próprias capacidades, indo ali, no covil, por sua conta e risco. Havia uma razão para os caçadores andarem em grupos de três ou quatro. Por ignorar séculos de tradição e ensinamentos, via-se agora num beco cuja única saída parecia ser uma morte lenta e dolorosa, que poderia se estender por anos a fio, se as criaturas estivessem particularmente dispostas a praticar aquele seu distorcido senso de humor.
Não deveria estar hesitando. Não poderia deixar as dúvidas lhe paralisarem...
Porém, para sua vergonha, era exatamente isso que estava acontecendo. O homem alto e de cabelos escuros, uma mancha branca e preta no seu terno caro, se aproxima com ar de ofendida revolta no rosto másculo. Os dedos, suados dentro da luva, fazem um movimento para lançar a espada à sua volta de maneira ampla e defensiva. Ballesteros percebe, um segundo depois, que aquilo abrira a sua guarda, expondo seu flanco. Para seu azar, Graham também percebe. Com o punho cerrado, ele apara o impacto da lâmina com o antebraço. Ao contrário do que deveria acontecer, o metal não trespassa tecido, carne e ossos – e sim racha e trinca, em contato com a manga do terno Armani. O cérebro de Ballesteros se enche de mórbido fascínio. Já ouvira falar de monstros que podiam fazer isso, concentrar tanta energia que se tornavam momentaneamente indestrutíveis. Mas nunca presenciara tal coisa, era...
Era mortal. Com a atenção focada em observar, o papel de caçador fora esquecido por um instante E um instante era tudo o que Graham precisava. Afastando a lâmina com desprezo, os dedos longos e pálidos cerram-se, violentamente, na garganta de Ballesteros. Graham tinha um “quê” por gargantas. Talvez isso traísse a sua natureza animal. Ou talvez fosse o fato de que era um dos pontos mais adoravelmente frágeis dos humanos, assim como os olhos... Sustentada fragilmente pela coluna, necessária para trazer o precioso ar para os pulmões, o sangue que vibrava sob a estrutura da garganta era sempre doce, quente e fluía rápido. Delicioso.
O homem suspende Ballesteros sem dificuldade do chão, o corpo diminuto do caçador assumindo o papel de presa. Com o movimento, o chapéu cai da cabeça suada, revelando cabelos lisos, finos, cor de rato... E um rosto avermelhado e muito jovem, cujos olhos eram de uma cor tão indefinida quanto à dos cabelos. A assassina de N’Bae era uma garota pequenina, de mais ou menos vinte e poucos anos, e absolutamente desprovida do lendário charme dos Ballesteros. Quem sabe a perspectiva da morte a tornasse ainda mais insípida do que deveria ser, Graham pensa, fitando-a de maneira fria, o ódio sendo lentamente substituído por sentimentos mais calculistas.
Tudo o que se ouvia agora eram as respirações rasas de seus companheiros – incrível como velhos hábitos demoravam a sumir...- e o som gorgolejante que saia da garganta da jovem Ballesteros. O líder analisa a garota sob seus dedos com os olhos escuros. Então, ela pretendera desafiá-los, não é? Um sorriso gelado passa pelos lábios cheios. Pois bem, ele faria a sua vontade... Mas não exatamente como a impertinente invasora planejara.

- Mas que merda...?- o resto da observação surpresa de Eric se perde qdo ele sente o metal cedendo sob seus dedos. As dobradiças deveriam estar oxidadas, ele pensa. Não fazia sentido elas se apresentarem tão pouco resistentes... Não fazia sentido que sair daquela caixa sufocante fosse tão fácil... Fazia ainda menos sentido olhar para cima e notar que os dedos de Kary, cerrados sobre a dobradiça, faziam o metal se romper quase com delicadeza.
Um estalo, dois, vários – em questão de momentos, o som alto demais da porta de madeira cedendo de sua moldura foi nitidamente ouvido. Para Eric, parecia um coro de anjos metálicos e pós modernos que anunciavam a liberdade, de qualquer maneira... O rapaz espalma as mãos na peça pesada que era a última barreira entre eles... E o resto. Ou ao menos era o que ele desejava de todo o coração. Os sons urbanos - automóveis, falatório e música alta chegam até os seus ouvidos de maneira distante, mas já era um excelente prenúncio...
– Cuidado aí. - ele avisa, de maneira desnecessária. Kary já sustentava, por sua conta, uma boa parte do peso. Por entre os fios escuros e com ar de “viu só, seu idiota, eu disse que conseguiríamos” estampado no rosto, ela fita Eric com os lábios cerrados. Parecia estar se contendo para não verbalizar o que estava bem claro em sua expressão. Feliz pelo fato de que estavam prestes a sair dali, ele simplesmente não se importa, esboçando para ela um sorriso luminoso q deixava ver os dentes brancos sob os lábios e o cavanhaque. Com um movimento coordenado, eles empurram a porta para a direita, abrindo assim caminho para uma longa escadaria desgastada que levava para a insegurança familiar das ruas cheias de gente. Era possível sentir o odor de gasolina queimada trazido pela brisa fria, e poucas vezes Eric achou um cheiro tão delicioso assim. Erguendo-se, ele volta-se para os amigos, ignorando que a luzinha da câmera oculta piscava histericamente, agora... Em uníssono com sons de alarmes que ele podia captar apenas de forma distante. Mas como não parecia fora do contexto, ele não se importou.
Como se tocada por uma corrente elétrica, Kary se precipita na direção dos degraus. Só precisava sair dali, naquele minuto, antes que continuasse pensando aquelas coisas sangrentas e horrorosas. A frieza do mundo real toca o seu rosto de maneira simultaneamente refrescante e dolorida - um choque de realidade que clareava sua mente à força. Eric lhe dá passagem, caminhando até onde estavam Mandy e Tatj. A ruiva permanecia desacordada, assim, ele a pega nos braços para levá-la. Estranho... Tatj não era nenhum peso pena, e em uma situação normal, carregá-la daquele modo certamente estouraria as costas de Eric. Porém, ela lhe parecia leve como uma flor. Se fadas existissem, elas seriam assim, sem peso algum. Assumindo que devia estar sob efeito da adrenalina ou qualquer componente bioquímico milagroso, o rapaz fita o rosto desfeito de Mandy:
- Dy,vamos sair daqui. Precisa de ajuda? Acho que o Beau vai ter que dar uma mão ao Adam...
- Não, tudo bem. Eu consigo. - ela se esforça para dar um sorriso. Seus lábios trêmulos transformam a tentativa num esgar. O que a loira mais desejava, naquele instante, era um longo banho de imersão, em água quente e limpa, para livrar-se daquela sensação de que algo pegajoso tinha deslizado por sua pele. Ela se ergue, usando a parede como apóio. Alguns passos hesitantes depois – e então ela nota que perdera um de seus sapatos. Era um Jimmy Choo. Mas valia muito mais sentir o chão áspero e os degraus sujos contra seu pé descalço do que ficar naquele túmulo coletivo com os dois pés calçados, ela pensa, antes de, vagarosamente, começar a subir.
Beau não se movera do lugar, ainda encolhido contra a parede. Eric fita o amigo com uma expressão que mesclava impaciência e medo:
- Beau, vê como o Adam está. Ajuda ele...
- Eu já olhei. -O tom de voz era o de uma criança que havia sido mandado fazer algo particularmente aborrecido. - E não dá pra ajudá-lo. O Adam tá morto, Eric. - a informação é dada em pouco mais que um sussurro. Uma calma gelada parecia ter se apossado de Beau – obra da Voz, sem dúvida. Ela parecia meio aflita – talvez com outras coisas em mente...? – mas dizia a Beau que eles deviam sair dali. Rápido. Senão teriam ainda mais problemas. Na concepção de Beau, sobravam bem poucos problemas para eles. Afinal, depois que vc morre afogado num molho denso de seu próprio sangue, sangue alheio e sujeira, e depois volta à vida assim, sem a menor das considerações, quanta coisa mais podia dar errado?
A maneira desapaixonada com a qual Beau dá a sua sentença acerca de Adam faz Eric sentir como se o seu estômago tivesse subitamente despencado para os seus pés. Não podia ser verdade. Jovens só aparecem mortos em porões abandonados em filmes de terror ruins e notícias de jornal que só aquelas velhinhas com um gosto por sangue liam. Não deveria acontecer com pessoas de verdade. E eles eram pessoas de verdade, matavam aulas na faculdade, passavam horas de papo furado via Messenger e riam de piadas idiotas. Ele sente o mundo oscilar, e a única coisa que evita que ele caia é Tatj. De repente, mantê-la em relativa segurança pareceu ocupar todo o seu consciente. Os dedos se cerram com força na carne macia antes que ele empurre as palavras entre os dentes:
- Então nós temos que tirá-lo daqui. Anda, Beau, não vamos deixar o Adam aqui!
- É inútil, Eric. Inútilinútilinútil.- O aviso torna-se uma cantiga sem pausas para respirar. De maneira surpreendentemente ágil, Beau salta do lugar onde estava, saindo de sua posição fetal para, no instante seguinte, estar de pé diante de Eric. A coisa acontece tão rápido que o rapaz não se contém e dá um passo para trás, os cotovelos se erguendo de maneira defensiva para manter Tatj em relativa segurança:
- Beau, a gente não pode...
- A gente deve, Eric. - o brilho de aço parece revestir as pupilas castanhas de Beau. Sem o menor traço de gentileza, ou de hesitação, ou do Beau que ele conhecia, Eric se vê empurrado, escadaria acima, sem chance de firmar-se em seus pés e negar aquela insanidade. A urgência traduzida nos gestos e na expressão do seu amigo (ainda era o seu amigo, não é?) mata seus argumentos antes que eles se formassem em sua garganta. Com um último olhar para o corpo de Adam, ele murmura uma desculpa sincera. E logo se vê a caminho da luz mortiça dos postes, que indicavam o mundo além daquele porão, as silhuetas de Mandy e Kary cortando a luz, seus rostos obscurecidos parecendo deslocados do mundo real.
As mãos de Beau, empurrando suas costas para que ele se movesse mais depressa, fazem Eric parar de divagar. Com um suspiro, o rapaz concentra-se em não cair – e aquilo já lhe parecia uma enorme conquista.

Pelo corredor longo, Ballesteros caminha com graça mortal. Fora fácil invadir o lugar. Segurança mal feita. De quinta categoria. Nem sequer uma gota de suor escorrera pela sua testa, para criar uma ilusão de algum esforço. Os corpos caídos pelo caminho não lhe importavam – eram simples serviçais, que estariam mortos assim que os seus donos encontrassem o destino final. Talvez algum deles tivesse tido tempo de avisar os seus senhores acerca de sua presença. Um sorriso de prazer diante de tal perspectiva passa pelo seu rosto. Era bom quando eles sofriam por antecipação. Isso costumava tornar inimigos potencialmente difíceis de destruir em criaturas alucinadas pelo pânico e pelo ódio. Qualquer chance de fazê-los sofrer devia ser bem aproveitada.
Tendo como companhia apenas o ruído leve de seus passos, Ballesteros se permite um instante de reflexão. Por que, quando os malditos se tornavam confiantes, também se tornavam tão descuidados?! Não conseguiam aprender com seus erros? Talvez. Na verdade, a arrogância desmedida era a principal causa mortis entre os monstros. Eles sempre acreditavam, com a sua fé corrompida, que nenhum mortal seria páreo para eles, para suas táticas e truques sujos. Apesar de tudo o que a História registrava, eles continuavam firmes nessa convicção. O que só provava que eles tinham uma fatal tendência à subestimar seus inimigos...
A pistola é recarregada ao mesmo tempo em que o casaco se abre para revelar, colada ao seu corpo com a intimidade dos amantes, uma longa lâmina cor de prata. O punho era elaborado, curvilíneo, quase feminino. Ninguém diria que o velho Ramirez preferia uma arma tão delicada. Pelo visto, herdara o gosto por armas inadequadas do seu avô. Ele também tivera que lidar com sobrolhos franzidos por suas escolhas. Mas ele também via além do óbvio – e entendia que armas aparentemente erradas poderiam se tornar as melhores...
Dentro da sala de observação, Graham larga o pescoço de Alec e se afasta um passo para trás, uma raiva fria e surda congelando suas feições aristocráticas. Os olhos escuros fitam o jovem loiro com desprezo, enquanto, inclinando-se para frente, a mão sobre o pescoço machucado, os cabelos loiros caindo diante dos olhos enquanto ele choramingava uma reclamação. Damaris reconhece a expressão no rosto do líder – um gato cruel e distante que gostava de dar alguns segundos de ilusão aos pobres ratinhos antes de destroçá-los. De qualquer maneira, não havia tempo hábil para isso. Tentando aparentar uma serenidade inexistente, ela se aproxima de Graham, os dedos longos puxando-o delicadamente pelo punho do seu paletó Armani:
- Não temos tempo para isso. Não agora... Temos que sair daqui. Vc sabe disso...!- a última frase sai com uma nota inconfundível de queixa, pois Graham fitava a mão no seu antebraço como se fosse um inseto particularmente repugnante. - Ballesteros matará as presas e nos livrará de um problema maior. Mas nós morreremos antes delas, se permanecermos aqui. - a bela mulher usa o seu tom de voz mais sedutor e convincente, na esperança de chamar o líder à razão. Alec recolhia o laptop com gestos bruscos, a mágoa mto evidente no seu rosto. Seria possível que nem mesmo sob a ameaça de serem destruídos seus companheiros conseguiam colocar o ego um pouco de lado?! Damaris se exaspera: - Jamais pensei que Georgianne e Bardolph teriam mais presença de espírito do que vocês!!
- Covardes, é o que são. - a voz roufenha e carregada de crítica de N’bae é perfeitamente audível enquanto ele se ergue com auxílio de seu cajado. - Sempre soube disso...
- Vc sempre sabe de tudo, N’bae. Devia ter previsto também que isso acabaria mal!!- Damaris exclama, sua fleuma sendo lentamente consumida por seu desagrado. Sua intervenção faz com que Bardolph aperte Georgianne com mais força contra o seu peito largo. Ele estava pronto a soltar a sua querida menina para transformar os ossos velhos do africano em pó, por sua ousadia. O gigante ruivo não costumava concordar com Damaris, mas, naquele momento, ela tinha razão... Georgianne sussurra algo que apenas ele pode escutar, e ele acena com a cabeça, em concordância. Assim, com a menina bem acomodada em seu braço, Bardolph se encaminha para a porta que os conduziria para outro lugar, além dali, em segurança.
Porém ele não se move com a rapidez necessária. A porta principal se abre com o que parece ser uma pequena explosão de fumaça. Uma onda de cheiro acre se espalha, irritando olhos e narinas sensíveis. Os barulhos e a comoção não são suficientes para fazerem um silvo agudo e coletivo passar despercebido – como se, subitamente, um viveiro cheio de cobras protestasse contra a invasão.
Mas não eram cobras, e sim os observadores, os autores do som. Com as presas saltadas e os olhos vermelhos, as mãos crispadas em garras, eles se preparam para revidar o ataque daquele serzinho humano e insignificante. Apenas um deles não poderia derrotá-los, não importava o quanto fosse habilidoso ou especial. Ainda mais enfurecidos pelo que consideravam uma ousadia, o grupo se agita, como um único e grande animal. O som de tiros interrompe o alarido, e Bardolph pressente o impacto das balas especiais antes mesmo delas perfurarem a sua carne e seus pulmões. Aquilo não era suficiente para matá-lo, mas era mais do que bastante para provocar uma onda de medo no rostinho miúdo de Georgianne. A menina contém uma exclamação assustada, os olhos mto arregalados ressaltados por sua palidez. Bardolph meneia a cabeça, como a dizer que tinha tudo sob controle – e, com um movimento do seu ombro contra a porta secreta, ele faz com que ela se abra, garantindo-lhes uma saída segura. E ele manteria essa saída segura pelo tempo que fosse possível. Uma vez dentro do corredor, ele ergue a perna e a fecha mais uma vez, o solado de sua bota gasta se chocando contra a folha pesada com o desagradável som de uma sentença. Os demais poderiam se virar sem ele.
Dentro da sala, o festival de tiros continuava. Incapacitar para matar. Separe sempre as cabeças dos corpos. Faça com que se distraiam e se enfureçam, pois assim todos os cuidados são perdidos. A lâmina encontra a carne velha do africano. Este aqui era antigo e delicioso. Ballesteros sente a energia bruta contida pelo corpo encarquilhado se esvair e cobrir a sua espada como mel, o choque deixando seus dedos momentaneamente adormecidos. Ainda não estava morto, mas o encontro de sua corrupção com a pureza do metal consagrado seria fatal. Seria apenas questão de segundos. E a morte de cada um do grupo diminuía o poder dos demais. Ballesteros estudara. Não era idiota. Sabia que essas criaturas possuíam estranhos laços. E era o seu papel cortar cada um deles. Tornando assim a sua espada poderosa...

A multidão e a música enchiam o exterior da prisão e da sala de observação. Era sexta à noite, e em cada espaço livre daquele lugar havia um bar, um pub, uma boate ou armadilha para jovens. Enfim, com a quantidade de tipos e tribos diferentes que faziam a área de cerca de cinco quarteirões ferver, as figuras bizarras não chamavam realmente a atenção. Não mereciam mais do que uma olhada, se tanto.
Uma pessoa vestida de negro, com um casaco enorme que a deixava mais miúda, sorri diante de tal constatação. Monstros estúpidos. Achavam mesmo que podiam vestir as suas peles de cordeiro e ocultar-se no meio do rebanho barulhento. Sempre ouvira falar que os monstros eram seres extremamente inteligentes, mas isso devia ser nos velhos tempos. Ou será que eles não compreendiam que o disfarce que lhes servia podia ocultar também outras garras afiadas, outros monstros?
“Não que eu seja um monstro”. O pensamento foi embora tão rápido quanto surgiu. Não, não era um monstro. Era um soldado treinado para caçá-los e destruí-los. Nada mais, nada menos, só isso. Considerem como um negócio de família. Sabia fazer aquilo, e sabia fazer aquilo bem. Captar os pequenos sinais. As evidências deixadas de forma descuidada. Farejá-los. Apanhá-los quando eles faziam um movimento tolo, levados pelo tédio que preenchia cada segundo de suas vidas longas demais...
Os dedos acariciam o punho da arma por sobre o casaco. Sabia que a peça tinha cabo de madrepérola e o símbolo de sua família entalhando de maneira primorosa na superfície pálida. Fora um presente de aniversário. Não queira saber que tipo de família dá de presente uma Glock 33 modificada, calibre .357, num aniversário de 14 anos. E fora a sua companheira fiél de extermínio desde então. Seus irmãos viviam fazendo piadinhas sobre a sua escolha, mas não importava. Podia ser considerada uma arma leve para o fim que era usada, mas era a que, na sua opinião, era a mais confortável e confiável. Às vezes, desenvolvemos certas afinidades com objetos que só podem ser justificadas pelo valor sentimental destes...
Enfim, eram presentes e piadas assim que faziam os membros de sua família tão peculiares.
Era interessante ser peculiar...
Seus movimentos era fluidos, discretos. Logo o espaço era localizado e analisado. Com sorte, o serviço todo não duraria mais do que dez minutos. Talvez quinze, se as presas dos monstros tivessem energia o suficiente para gritar e se debater, ainda. Não apreciava aquela parte de suas obrigações; afinal, as presas ainda eram vítimas inocentes, assustadas... Não faziam idéia do que iriam se tornar. De que tipo de terror os aguardava. Não entendiam que era melhor morrer de forma rápida e não muito dolorosa.
De qualquer maneira, matá-las era não só necessário, mas também um ato de piedade.
Com um suspiro, a obrigação e o treinamento tomam conta de seu corpo, deixando os pensamentos e dúvidas do lado de fora. A humanidade se resguardava, para que a máquina assassina surgisse. Aquele era o seu trabalho, e cada instante era apreciado como a arte delicada e especializada que era.
Dentro da sala, Alec ergue violentamente a cabeça. O mesmo sentimento parece se espalhar entre os demais, que se remexem, inquietos, pressentindo algo errado. Georgianne começa a recolher o seu material, silenciosamente, os olhos estreitados numa expressão apreensiva que não combinava com o seu rostinho infantil. Claro que ela sinalizara. Mas não queria morrer. Não ainda. Queria apenas... Brincar um pouco. E tornar a situação mais divertida ainda. Seus olhos escuros procuram o rosto de Bardolph. Apesar de meio oculto pela caneca enorme de cerveja, ele meneia a cabeça ruiva num gesto fugaz e cúmplice. Georgianne sorri. Sim... As coisas iriam se tornar muito interessantes, muito em breve...
- Nossa segurança foi quebrada. - a voz jovem de Alec oscila entre um tom grave e agudo, traindo a sua incredulidade. Olhos cheios de raiva e medo mal disfarçados se voltam na sua direção. Mas não tão rápido quanto o líder. Quando Alec ouve o som do seu laptop atingindo o chão, os dedos de Graham já estavam crispados em seu pescoço, pressionando-o com força contra o encosto do sofá caro e afundando a sua traquéia sem sinal de piedade. Aquilo não o mataria, mas, sem dúvida, machucava bastante...
- E como vc explica isso, Alec?- a voz de Graham era fria e baixa. Atrás deles, os demais se moviam de maneira apressada. Bardolph soltou a caneca de cerveja e, inclinando-se, trouxe Georgianne para a segurança de seus braços, largos como troncos de árvore. O rapaz loiro gorgolejou uma resposta incompreensível. Damaris, fitando a tela da TV, notava, incrédula, que as presas pareciam estar tendo sucesso em arrombar a porta.
Quanta coisa pode dar errado em dois minutos?!
Muitas, é o que ela conclui, quando finalmente compreende o que Alec estava tentando dizer:
- Ack... Teros... S-só pode ser Ballesteros... Ninguém maargh... -a menção do nome tão temido faz Damaris sentir algo se congelando dentro dela. Era um pesadelo. O que começara como uma aposta inocente poderia acabar com a destruição deles. A bela mulher engole em seco, tentando organizar seus pensamentos, enquanto a idéia vaga de que não deviam perder tempo agredindo uns aos outros e facilitar assim o trabalho de Ballesteros passa pela sua cabeça...
Dentro do porão, indiferentes à aflição de seus algozes, o grupo de amigos tentava se safar daquela situação estranha. Beau fitava o corpo de Adam com expressão desolada, enquanto Mandy murmurava tolices para Tatj, na esperança de despertá-la. Eric e Kary analisavam a porta, na esperança de descobrir o que fazer. O rapaz espalma a mão na madeira. Era obviamente firme, a despeito de marcas profundas que pareciam ter sido feitas por um machado... Mesmo com cicatrizes, parecia inabalável e confiante de que os manteria ali. Dobradiças enormes, que se projetavam no ar como um desafio metálico e silencioso. Ele faz força, na vã esperança de sacudi-la. Nada acontece e ele murmura um palavrão, frustrado.
Os olhos escuros de Kary deslizam pela superfície de madeira, uma, duas vezes, até q ela cruza os braços e se pronuncia com sua voz áspera:
- Se arrancarmos a porta das dobradiças, nós sairemos daqui.
- Kary, não temos ferramentas. Acha q eles deixariam um pé de cabra ou uma chave de fenda dando sopa por aqui?! - e ali acabava o conhecimento sobre instalação de portas que Eric detinha. Seu pai era quem gostava de fazer consertos em casa – e sempre reclamava q Eric não era capaz sequer de segurar a lanterna no ângulo certo. - A menos que você tenha desenvolvido super força, é claro. - Eric não sabia de onde vinha aquele ímpeto de provocar Kary. Talvez, deixando evidente a fraqueza dela, diminuísse suas próprias falhas. “Que hora para bancar o psicólogo”, ele pensa, aborrecido consigo mesmo.
Algo muito similar a ódio brilha nos olhos de Kary. Mais uma vez, aquela vontade de quebrar algo – nesse caso, alguém – com suas próprias mãos parece embriagá-la, momentaneamente. Não, era mais do que embriaguez. Era uma fome, uma vontade que quase a cegava, tamanha a ânsia de satisfazê-la. Podia se ver chutando Eric. O rosto dele torcido sob a sua bota. Carne contra couro. Ele sangraria, o lábio inferior cheio vermelho de sangue, o cavanhaque tingido de rubro. Ela o levantaria pela frente daquela odiosa camiseta do Motorhead e...
A cena seguinte que estoura em sua cabeça é tão chocante, tão absurda, que Kary pisca, suas feições tornando-se pálidas. Sequer sabia que conseguia IMAGINAR aquele tipo de coisa..!! E, curiosamente, não se sentia envergonhada por isso, e sim... Remotamente excitada. Como se excitação pudesse fazer parte do contexto, naquele exato instante. Decididamente, não, não era adequado. Ou correto. Ou...
A moça abaixa o olhar, fitando as botas por um segundo antes de desviar o olhar novamente para a porta. Não queria olhar para Eric nesse instante. Sabia q a expressão dele era de impaciente surpresa. Pensar que parte dela preferia o amigo sangrando e excitado era... Selvagem demais. Na esperança de trazer alguma racionalidade para o momento, ela diz, num tom de voz estranhamente controlado, como se ela medisse as palavras:
- Se forçarmos o suficiente, eu e você, podemos arrancar as dobradiças. O que nos custar tentar, Eric?! Não é como se tivéssemos algo melhor pra fazer. Não quero ficar esperando para ver o que acontece. Eu NÃO QUERO. - uma onde de urgência coloriu a última observação. Algo dentro de Kary vibrava ansiosamente, como se gritasse para que ela saísse dali, o mais rápido possível.
Era difícil se colocar contra tal argumentação, Eric reconhece. Ele sentia a mesma urgência fazendo o sangue pulsar com mais rapidez. O fato de que tinham que sair dali se tornava mais e mais premente. Tentando ignorar o mundo de expressões inesperadas q haviam cruzado momentaneamente a face de Kary, ele concorda com a cabeça, fitando os outros por sobre o ombro antes de flexionar os dedos e colocar-se ao lado da morena. Assim, ambos fecham as mãos sobre as dobradiças – Kary com a superior, Eric, agachado, com a inferior, apto a sustentar o pesa da porta caso ela cedesse. Ambos se entreolham antes de trocar um quase imperceptível aceno de concordância. Como se fossem um só, Eric e Kary forçam as peças de metal.
Era um plano louco, movido pelo desespero e que ambos sabiam que certamente iria falhar miseravelmente.
A surpresa de ambos é a mesma, quando, por alguma razão ignorada, o metal começa, de maneira lenta, mas definitiva, a ceder sob seus dedos...

art by The Stealth Nija (http://thestealthninja.deviantart.com/)
O pedido de Mandy faz com q Eric engula, meio à força, o bolo de desaforos que se formara em sua garganta com uma velocidade espantosa. Usualmente não se importava com as faíscas eventuais q Kary lançava, mas aquele momento era qualquer coisa, exceto usual. Ele resolve obedecer a sugestão da loira – a coisa mais sensata dita até aquele instante e, com um movimento meio trêmulo, ele passa a mão nas costas de Beau, num gesto de consolo. A percepção de q a blusa do amigo estava grudada – e de aquilo não era apenas suor – o preocupa. Beau parecia machucado, talvez estivesse em choque, o que explicaria o seu comportamento estranho.
Afastando aquela idéia de sua mente por um instante, ele se põe de pé, caminhando devagar até onde estava Tatjana. Com um gesto cuidadoso, ele afasta os cabelos vermelhos, expondo o pescoço longo e pálido. A visão dele se aguça de maneira inesperada – e, mesmo com a iluminação deficiente, era como se ele pudesse ver os pequenos pêlinhos q recobriam a nuca da moça, o modo como eles ficavam mais longos e curvos até se tornar os fios acobreados na base de sua cabeça. Seguindo um comando vindo-se lá sabe de onde, os dedos trêmulos de Eric tateiam a pele macia, num movimento q, fora daquele contexto, seria intensamente sensual...
A percepção de uma batida fraca, mas constante, tira Eric do devaneio. O sangue de Tatjana vibrava sob a sua pele pálida, numa otimista indicação de que ela estava viva...
- Beau, Mandy,a Tatj tá bem. Só desacordada. Beau... Beau!- uma nota de impaciência tinge a voz de Eric. O amigo voltara a se encolher contra a parede, dessa vez mais perto de Mandy, mas ainda murmurando algo ininteligível. Qdo finalmente ele se digna a postar os olhos castanhos sobre Eric, este faz um gesto impaciente com a cabeça:- Vê como o Adam está. – movendo o corpo, o rapaz apanha a ruiva nos braços e a coloca perto de Mandy. Com um olhar duro para Kary, ele diz: - Já que vc está com tanta pressa de sair daqui, vamos ver a tal porta.- havia uma ponta de desafio nas palavras. Kary era alta, mas era magra... Era uma garota, bolas. Garotas NÃO saiam por aí arrombando portas. Ao menos não as vagamente normais. Kary podia gostar de usar umas roupas meio góticas, mta maquiagem no olho, mas não era nenhuma arrombadora...
De qualquer modo, a morena parece encarar aquilo como o desafio q era e, erguendo o queixo, testa a firmeza das pernas antes de seguí-lo na direção dos degraus. Aparentemente, aquela porta era a única saída dali. As janelas eram altas, estreitas e gradeadas, pouco mais do que respiradouros fechados. Só poderiam ter entrado ali pela porta. E provavelmente seria a única maneira de sair dali...
O corpo de Tatjana cai contra o ombro de Mandy, e ela tenta acomodá-la melhor contra si. Beau, sacudindo a cabeça (e com isso o som da marcha militar francesa diminui drasticamente dentro da sua cabeça, o que não deixava de ser um alívio), pisca para colocar o mundo em foco e obedece ao que Eric lhe mandara fazer. Engatinhando, ele vai até o ponto onde Adam estava caído. Ele coloca dois dedos no pescoço fino. Nada. Ele se aproxima, tentando sentir alguma respiração. Nada. O pânico comprime suas entranhas de maneira desagradável. Olhando por cima do ombro, ele vê Kary e Eric tentando forçar a porta. Olhando para frente, ele vê Mandy tentando despertar Tatj com murmúrios.
Não parecia a melhor hora para comunicar q Adam estava, provavelmente, morto.
Subitamente, Beau sente falta da voz e suas ordens. ELA saberia o que fazer...

- Cala a boca, Beau. Cala a boca... – embora a voz fosse fraca, a inflexão particular de Karyan – Kary – tornava a advertência áspera. Porém, até quando estava sendo gentil, a voz de Kary soava com um toque de lixa, herança dos seus pais armênios. Eric achava sexy. Mas a moça, cujos cabelos de um tom denso de mogno cobriam o rosto, não parecia nada sexy, no momento.
Assim como os outros, Kary sentia dor. De maneira vaga e surda, latejando em algum lugar. Mas, mais do que isso, ela sentia raiva. Uma raiva indefinida e endereçada a tudo. De estar ali, de sentir-se machucada e invadida, do que quer que tivesse acontecido – que a sua mente percebia como ruim e nebuloso, mas sem nenhuma forma clara. Um mecanismo de defesa, talvez. E o fato de que talvez estivesse precisando de um mecanismo de defesa qualquer apenas servia para aumentar aquela fúria que incendiava o seu sangue, em ondas tão inflexíveis e indiferentes quanto as da maré...
As palavras de Kary parecem atingir Beau como se possuíssem força física; o ar distante some do seu rosto, e ele parece ceder sob o peso do próprio corpo. Apoiado mais uma vez nas mãos, o rapaz dobra os cotovelos, ocultando o rosto na curva do braço, aparentemente sem se importar com o cheiro de sangue que o repugnara antes.
- Desculpa, Kary... Desculpa... – o pedido se transforma em um murmúrio desconexo. Quando capta algo que soa muito parecido com “Je serai un bon garçon. Je veux être un bon garçon “*, o pensamento de que Beau podia estar tendo alguma espécie de surto passa mais uma vez pela mente de Eric. Mas logo é descartado. Aquilo tudo era uma espécie de surto coletivo. O que fosse dito ali seria resultado da óbvia tensão a qual eles estavam sendo submetidos. Iriam escapar dali, sobreviver àqueles momentos de terror e pânico e jamais tocar nesse assunto novamente. Dividiriam para sempre um laço invisível que os teria tornado mais fortes, mesmo que de maneira desagradável. Satisfeito com a maneira com a qual as frases pareciam tão cheias de sentido na sua cabeça, Eric se ergue de maneira vacilante, olhando em volta. O seu movimento é imitado por uma ainda obviamente zangada Kary.
- A menos que tenha sido você que nos trancafiou aqui, Beau, é melhor ficar calado. Não torra!- ela exclama, entre os dentes. Os sons estranhos q o amigo fazia a deixavam ainda mais irritada. A moça percebe, porém, que tudo a estava deixando mais e mais irritada. Não se reconhecia. Era como se um oceano de ódio primitivo estivesse forçando as barreiras de civilidade que o continham. Seus dedos se crispam na parede, enquanto ela tentava equilibrar-se nos dois pés, de maneira mais ou menos firme...
Inspirando fundo, ela ergue o queixo num ângulo teimoso e encara Eric:
- Onde estamos? O que diabos aconteceu?
- Essa deve ser a pergunta vencedora... – Eric responde, de má vontade, a agressividade mal disfarçada de Kary fazendo algo se torcer de maneira desagradável dentro dele. - Se não notou, Kary, estou aqui da mesma maneira que vc. Exceto por ter acordado uns dois minutos antes, não sei de muita coisa! - O comentário termina saindo num tom mto mais beligerante do que ele gostaria. Os olhos esverdeados de Kary se arregalam de choque e acinte. Ela abre a boca para retrucar, mas o gemido de Mandy faz com que ela cerre os lábios mais uma vez:
- Não briguem... Por favor, não briguem... Isso não faz sentido... Vocês deviam ver se o Adam e a Tatjana estão bem... Não briguem!- o pedido é feito em voz estridente. Num tom que anunciava um ataque histérico.
- Vê? Já começou. - N’bae comenta em voz alta, aparentemente feliz por ter sido o primeiro a predizer que os jovens iriam se matar. Alec tamborila os dedos sobre o laptop, demonstrando uma ponta de nervosismo. Georgianne coloria caprichosamente uma tulipa de vermelho, como se a discussão não lhe importasse. Damaris fita Graham, à espera de sua reação. Porém, o momento de silêncio é interrompido por um soco na cara mesa Chippendale, de estilo oriental:
- Ah!! Essa pirralha tem fogo nas veias. Gosto do jeito que o olho dela brilha, com sede de sangue. - o dono da voz grave era alto, seu cabelo loiro alaranjado longo, com duas pequenas tranças atrás das orelhas, que se destacavam da massa cor de fogo por estarem cuidadosamente presas com várias peças de metal prateado. Seu peito era amplo, e o seu corpo em formato de barril parecia prestes a rasgar as costuras de sua camisa xadrez. Ele era ainda mais destoante do ambiente do que Georgianne, com seus jeans gastos, suas botas pesadas e a sua lata de Budweiser.- Eu também acho que deveríamos ficar com eles. Um projeto a longo prazo, sabe...
- Isso está fora de questão, Bardolph.- A voz de Graham finalmente se faz ouvir. A maneira como o seu sotaque britânico se acentuava a cada palavra mostrava que o líder não estava no melhor dos espíritos. Irônico, se fosse levado em conta de que a idéia daquela pequena diversão noturna havia sido dele.
* Je serai un bon garçon. Je veux être un bon garçon = Eu serei um bom menino. Eu quero ser um bom menino.

Beau escuta as vozes de Mandy e Eric de maneira indistinta. Como se os amigos fossem uma estação de rádio mal sintonizada numa espécie de talk-show esquisito. Aquilo aumentava a sua sensação de que tinha tomado todas e mais algumas e fechara a noite apanhando de um time inteiro de futebol. Ou de basquete. Ou fosse lá qual fosse o esporte que reunia hordas de grandalhões descerebrados, no momento...
A questão era q Beau não bebia. Não se pode contar uma garrafa de Heineken como bebida. E a última vez que fora acuado por um bando de atletas q se divertiam espancando gordinhos incautos tinha sido no ginásio. Já fazia algum tempo. Hoje em dia, embora ainda fosse gordinho, Beau tinha aprendido a usar a cabeça para se defender e não estar nos lugares errados na hora mais inadequada possível...
Aparentemente, seus cuidados tinham falhado. E, pela dor q sentia se espalhando por suas costas e braços, tinham falhado de maneira miserável... Ele deixa a cabeça cair contra o chão, os olhos castanhos fitando o teto sem realmente vê-lo. Hm, com todos aqueles fios descascados, parecia o lugar ideal pra um incêndio...
“Isso não é hora de pensar em fios, seu imbecil”, uma voz adverte nitidamente na sua cabeça. ELES estavam lá. ELES estavam acompanhando. Assistindo... Beau não perde tempo cogitando quem eram ELES, pq a voz parecia tão absurdamente autoritária que ele não pretendia contrariá-la. Alguém tão determinado só poderia estar certo. Além do mais, Mandy não parecia feliz, e ele não gostava quando ela não estava feliz...
Com um esforço – e com a voz cantando uma espécie de hino militar em uma língua q parecia francês (como Beau poderia saber, se não sabia nenhuma palavra do nobre idioma?!) a título de incentivo, o rapaz rola o corpo e posiciona-se, de forma trêmula, sobre os joelhos e as mãos espalmadas. Tentando controlar o mal estar, Beau inclina a cabeça, apoiando-a momentaneamente nos antebraços... Antes de afastar o rosto com repulsa. O cheiro de ferrugem de sangue seco era inconfundível. Ele cogita, de maneira vaga, se seria o seu sangue ou de outra pessoa. Com a sua sorte, devia ser o seu mesmo. Todinho. A idéia de que talvez estivesse deitado numa marinada composta de sujeira e do seu próprio sangue faz com q ele se sinta um bife mal passado. Daqueles que, quando são cortados, escorre aquela mistura de salmoura e suco de carne.
Beau gostava de carne mal passada. Mas não o suficiente para querer ser parte da família.
Colocando-se em seus joelhos (e notando q o tecido da sua camisa havaiana se colava de maneira esquisita no seu corpo), ele move a cabeça na direção de Eric e Mandy.
- A banda era péssima... Mas o atendimento parece q é pior ainda... - o comentário é feito com uma voz que, embora trêmula, parecia colorida por uma nota de bom humor. Aquilo chama a atenção de Eric e Mandy, e também da voz. Com um peteleco mental, a voz avisa que o lugar dos engraçadinhos era no cemitério, e que, se Beau não prestasse atenção, ia ter que trocar aquelas camisas berrantes por um paletó de madeira. Contrariado com a advertência, mas em foco novamente, Beau olha direto para o lugar onde a câmera estava oculta. Sua expressão passa de aérea para séria. Séria demais, em total desacordo com os traços redondos e um tanto infantis do seu rosto jovem.
Na sala de observação, o impacto dos olhos castanhos faz com que os murmúrios silenciem.
- Ele pode nos ver?!
- Não. - a resposta de Alec é rápida o suficiente para trair a sua surpresa... E o seu desconforto. - Não, de jeito nenhum. É só um moleque gorducho que olhou para um ponto qualquer...
- A questão é que o ponto qualquer é o ponto certo. Mas não são assim todas as coincidências?-a voz infantil faz com que os observadores olhem, como um único monstro de muitos olhos, para a garotinha no ponto mais distante da sala sofisticada. Ela estava sentada no chão, as pernas cruzadas como as de um iogue, mostrando as pontas de delicados sapatos de verniz. Os cachos vermelhos estavam arrumados caprichosamente com um laço, de seda tão negra quanto à do vestido. Ela parecia mais uma versão extremamente dark de Darla, do antigo seriado “Little rascals”... E como se isso não fosse o suficiente para fazê-la destoar do ambiente caro e adulto, os demais pareciam incomodados com a suas palavras. Damaris fita a menina por poucos instantes e desvia o olhar novamente para a tela. Não suportava observá-la por mais do que alguns segundos...!
Parecendo distraída com folhas de papel e crayons, ela põe uma língua vermelha e pequenina para fora, parecendo concentrada em um detalhe particularmente difícil do desenho, indiferente aos adultos. Qdo eles finalmente começam a relaxar, ela comenta, sem desviar os olhos do trabalho:
- Eu gosto dele. Posso ficar com ele?
- Beau... Beau?- Afastando-se de Mandy, Eric se arrasta até onde o amigo estava, de joelhos como se estivesse na igreja, olhando fixo para a parede com um olhar que Eric só vira antes quando Beau apanhava dos colegas, na sexta série. Nessas ocasiões ele ficava sério e tenso, prometendo vinganças que jamais se realizavam. Mas o menino Eric ainda lembrava de quão assustadores eram esses momentos, de fitar Beau e não reconhecê-lo. E, após anos, estava acontecendo de novo...
- Eric. - Beau responde num tom de voz distante, os olhos pregados na parede de tijolos. - Eles estão nos observando. Os velhos idiotas. Idiotas. Idioooootas.... -uma risadinha cínica faz Eric se preocupar com a sanidade do amigo.
A risadinha encontra um eco silencioso na garotinha dentro da sala de observação. Se eles não estivessem tão surpresos com aquela reação inesperada de uma de suas presas (nem de longe a mais provável de esboçar uma reação, de qualquer modo), teriam notado. Mas não... A novidade era algo traiçoeiro e atrativo, até mesmo para eles. O inesperado era um elemento raro para todos ali, e devia ser apreciado... Talvez temido?
Não. Não havia razão para ter medo. Eles acreditavam firmemente que não havia problema algum que o extermínio não resolvesse...
“ Velhos idiotas”. Georgianne sorri para o seu desenho. É, decididamente gostava dele...